AgirAzul 9
Biotecnologia & Biodiversidade
Redefinindo as Ciências da Vida
Este documento foi elaborado por
30 organizações não‑ governamentais dos seis continentes do mundo,
reunidas no seminário
Redefinindo as Ciências da Vida, realizado de 7 a
10 de julho em Penang, Malásia sob o
patrocínio da
pela Rede Terceiro Mundo (TWN). O encontro, sob a coordenação de
Vandana Shiva, da Índia, e Martin Kohr, da Malásia, reuniu ativistas
e cientistas envolvidos com os múltiplos aspectos
das questões “Biotecnologias e Biodiversidade”, desde a
bioética e biosegurança até o patenteamento da vida, os
direitos intelectuais de povos indígenas e os próprios
fundamentos científicos da engenharia genética.
Esta declaração final
representa uma síntese das conclusões das ONGs presentes.
Penang, Malásia, 12 de julho de 1994 (David Hathaway, via
Alternex)
Declaração sobre os perigos da Engenharia Genética
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Cresce em vários países a preocupação do público com os potenciais efeitos nocivos e desastrosos da engenharia genética. A venda de alimentos geneticamente engenheirados (tais como o tomate “FlavrSavr” e o leite de vacas injetadas com o Hormônio de Crescimento Bovino recombinante) indicam o caminho para uma larga comercialização e uma expansão rápida da engenharia genética na agricultura. Isso resultará na criação de um vasto numero de organismos exóticos com grande potencialidade para provocar conseqüências inesperadas e danosas.
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A engenharia genética traz sérios riscos ao meio ambiente, à biodiversidade e à saúde humana. Estão sendo realizadas numerosas experiências em engenharia genética dentro de laboratórios bem como muitas liberações em pequena escala de organismos geneticamente engenheirados em testes de campo, sem medidas de segurança adequadas e antes de avaliações científicas sobre os impactos ambientais e sanitários da engenharia genética. Tal estado de coisas reflete a falta de responsabilidade por parte das autoridades governamentais, que permitem e apóiam esta situação através de enormes subsídios e financiamentos, bem como a falta de responsabilidade por parte das empresas e institutos de pesquisa que conduzem os testes e as liberações.
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A engenharia genética inaugura uma era de poluição ambiental biológica, acrescentando assim uma dimensão qualitativamente nova às crises ecológicas já geradas pelas indústrias química e nuclear. Os organismos geneticamente engenheirados podem sofrer mutações de modo imprevisível, acarretando danos à saúde humana e ao ambiente. Se tais organismos escaparem ao controle ou forem liberados deliberadamente no ambiente, e mesmo constatando‑se seus efeitos nocivos, não poderão ser recuperados ou retirados do ambiente. Além disso, eles migram, sofrem novas mutações e se multiplicam de modo incontrolado e incontrolável. Já presenciamos a dor e o sofrimento impostos pelas tecnologias química e nuclear, cuja segurança, embora prometida, nunca foi atingida. Com a engenharia genética, estamos à beira de uma nova ordem de perigos e sofrimento.
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Estudos recentes mostram que os riscos ecológicos associados à engenharia genética na agricultura compreendem as seguintes possibilidades: de que culturas transgênicas se tornem pragas e ervas daninhas; de que culturas se tornem um veículo através do qual novos genes se desloquem para plantas silvestres, que por sua vez podem se tornar pragas e afetar ecossistemas silvestres; de que plantas engenheiradas para conterem partículas virais facilitem a criação de novos vírus causadores de novas doenças vegetais; e de que plantas engenheiradas para produzirem substâncias tóxicas como pesticidas prejudiquem outros organismos, como os pássaros.
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A engenharia genética também pode provocar a erosão da biodiversidade agrícola. Algumas culturas transgênicas tem potencial para ameaçar os centros mundiais de diversidade fitogenética (localizados primordialmente nos países em desenvolvimento) e tal processo pode comprometer ainda mais a diversidade genética do planeta. As culturas transgênicas podem constituir uma ameaça para as plantas silvestres e para as variedades tradicionais em virtude da competição das culturas transgênicas e da transferência de novos genes destas culturas para as espécies nativas.
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A engenharia genética pode também acarretar riscos para a saúde humana, riscos estes que aumentam na medida em que os vetores virais são comumente usados para transferir genes. Os vírus mutantes poderiam ser perigosos para a saúde, e alguns talvez nem tenham cura conhecida. A morte de dezenas de pessoas causada pelo L‑triptofano, droga geneticamente engenheirada, ilustra os perigos potenciais de se usar a engenharia genética no setor da saúde. A engenharia genética de alimentos também pode aumentar a incidência de reações alérgicas, além de perturbar as complexas redes bioquímicas dos organismos e portanto por em risco a segurança dos alimentos afetados.
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As novas biotecnologias já estão produzindo impactos sociais e econômicos negativos nos países em desenvolvimento. A produção de substitutos para as culturas de exportação já compromete os meios de vida de inúmeros agricultores e ameaça os ganhos com a exportação nos países em desenvolvimento. Tal tendência deve se acelerar, com efeitos devastadores.
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Não pode haver nenhuma previsão real em termos ecológicos quando se trata de engenharia genética. Quando plantas, animais ou quaisquer organismos engenheirados escaparem ou forem liberados, será impossível prever seus impactos ecológicos e sanitários. A compreensão dos processos ecológicos está muito aquém do desenvolvimento da engenharia genética. Portanto o princípio da precaução deveria ser aplicado no caso da engenharia genética.
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Efetivamente, a própria “ciência” subjacente à engenharia genética está sendo questionada por numerosos cientistas. A engenharia genética pressupõe que as características dos organismos são determinadas unicamente por genes estáveis de modo que a transferência de genes resulta automaticamente na transferência das características desejadas. Tal determinismo genético vem sendo rejeitado por muitos biólogos por ignorar as interações complexas dos genes implicados na expressão do conjunto de características do organismo. É impossível, portanto, prever as conseqüências da transferência de genes de uma espécie de organismo para outra. Sabe‑se hoje que todo genoma pode ser desestabilizado, mutado e recombinado por uma série de processos naturais e que as transferências de material genético podem ocorrer entre organismos na natureza. A mudança do ambiente de um gene pode ocasionar uma cascata de mudanças posteriores que podem causar conseqüências ambientais catastróficas impossíveis de serem monitoradas, muito menos controladas. Esta mesma instabilidade do genoma neutraliza toda a empreitada genética, inviabilizando assim sua pretensão de beneficiar o público e até mesmo suas promessas de um retorno econômico. A busca do conhecimento cientifico não deve ter prioridade sobre, nem colocar em risco, a saúde e a integridade da comunidade; a ciência, pelo contrário, deve servir à comunidade.
Propostas de Ação
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Por tudo isto, a liberação de organismos geneticamente engenheirados no ambiente deve ser proibida imediatamente.
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Ha razões legítimas e científicas para nos preocuparmos com os perigos do uso controlado de organismos geneticamente engenheirados e de liberações em pequena escala para fins de pesquisa. Tais perigos exigem a proibição destas atividades também.
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Os países em desenvolvimento estão preocupados com a atual falta de informação e de conhecimento em relação às transferências internacionais que vêm ocorrendo de organismos geneticamente engenheirados e de experiências e aplicações da engenharia genética, em particular as transferências Norte/Sul. Tais transferências, que já vêm gerando efeitos nocivos, poderão aumentar substancialmente no futuro, criando maiores riscos ainda para o ambiente e para a saúde.
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Estamos portanto convencidos da urgente necessidade de se desenvolver um instrumento legal internacional, na forma de um protocolo ou convenção, que imponha a proibição da exportação ou transferência de organismos geneticamente engenheirados da OCDE para outros países. Esse acordo internacional faz‑se necessário porque:
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A biosegurança assume uma nítida dimensão internacional, especificamente na exportação entre países de organismos geneticamente engenheirados, de projetos de pesquisa e experiências com estes organismos, e de produtos que os contenham, como alimentos. Faz‑se necessário portanto um acordo entre todos os países envolvidos;
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Uma segunda dimensão internacional é de ordem ecológica: mesmo sem intenção de exportar, os organismos geneticamente engenheirados produzidos em um país possivelmente migrarão para outros;
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De modo geral, os países em desenvolvimento ainda não estão capacitados para avaliar adequadamente a segurança dos organismos geneticamente engenheirados, para vigiar a entrada dos mesmos por suas fronteiras, e nem para tomar as medidas corretivas na eventualidade de acidentes.
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A auto‑regulação e os códigos voluntários de conduta, sozinhos, já se mostraram inteiramente inadequados, haja visto a descarga de rejeitos tóxicos nos países em desenvolvimento.
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Estamos extremamente preocupados com as tendências recentes na área dos direitos de propriedade intelectual, em particular com relação ao acordo TRIPs (aspectos comerciais dos direitos de propriedade intelectual) do GATT/OMC (Organização Mundial do Comércio). Tal acordo obriga os países membros do GATT/OMC a permitirem o patenteamento da vida. Conclamamos os governos e todos os organismos intergovernamentais responsáveis a proibirem o patenteamento da vida, dos organismos vivos e de seus componentes, produtos e processos, por negar o valor inerente dos seres vivos. Quando os organismos são geneticamente manipulados, a “novidade” que parece resultar surge na verdade de propriedades inerentes à própria vida e não da intervenção humana. O patenteamento da vida deve portanto ser proibido no direito nacional e internacional.
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Lançamos um apelo à comunidade científica, aos profissionais e trabalhadores da saúde, aos líderes religiosos, aos ambientalistas, às entidades da sociedade civil, aos sindicatos, aos líderes políticos, e aos cidadãos a juntarem‑se ao movimento. Precisamos garantir o direito desta e de futuras gerações a um ambiente natural e saudável.(final)
