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OPINIÃO
Índigenas e áreas de conservação: a polêmica continua
Por
Francisco Silva Noelli*
Escrevo em resposta a José Truda Palazzo Jr. e a todos com a mesma
posição, contrária ao assentamento de índios Guarani, Kaingang e
Xokleng em áreas ecologicamente preservadas no sul do Brasil. Apelo
para que as atitudes ingênuas encerrem, pois enquanto prosseguir a
discussão corrente, vazia de embasamento científico, nosso país
seguirá firme em direção à monotonia cultural, botânica e zoológica.
Adianto, porém, que sou partidário da ação radical para a
preservação dos ecossistemas, bem como da autodeterminação das
sociedades indígenas.
Infelizmente, a realidade brasileira afunila negativamente o caminho
para a formação simultânea de profissionais em Biologia e
Antropologia (Etnobiologia), que possam traduzir holisticamente para
nossa sociedade a “Biologia Indígena”. Infelizmente, para ser um “etnobiólogo”
não basta apenas posicionamento político, mas anos de estudos e
prática. Infelizmente não encontramos pesquisadores treinados em
Etnobiologia em qualquer esquina, a exemplo dos ecologistas.
Não se pode conceber que um ECOLOGISTA prescinda da
multidisciplinaridade e de uma sólida base cultural, acadêmica ou
não. Sem a consciência plena da complexidade de tudo que esteja
relacionado à preservação dos ecossistemas, a curto e a longo prazo,
estaremos contribuindo para um futuro incerto da biodiversidade. Não
basta policiar e cercar com grades as reservas ecológicas.
Evidentemente, não me esqueci que há muitos interessados na
exploração absoluta de tudo que uma reserva possa oferecer.
Cientistas de algumas das instituições mais renomadas, como o New
York Botanical Garden, Royal Botanical Gardens (Kew), Botanisches
Institut der Justus‑Liebig‑Universität, Museu Paraense Emílio Goeldi,
etc, vêm clamando pelo reconhecimento de todos os níveis do
conhecimento biológico indígena. Este saber é apontado como uma das
principais alternativas para desenvolver ações auto‑sustentadas,
contribuindo para a manutenção da biodiversidade. Conforme a maioria,
a descoberta dos tipos de impacto ambiental dos diversos povos
indígenas poderá nos propiciar exemplos para manter as reservas
ecológicas e “restaurar” as que já estão destruídas.
Este reconhecimento não é dos nossos dias. No século XVIII, Linneo
considerava os Guaranis como os primus verus sistematicus da
Biologia. Muitos cientistas brasileiros de primeira linha, a exemplo
de Francisco Hoehne, Augusto Ruschi, Mário G. Ferri, Paulo
Cavalcanti, etc, também apontaram à necessidade do estudo da
Biologia indígena. Entre os Guaranis encontramos “verdadeiros
biólogos” que mantêm o saber tradicional, como demonstraram em 1985
Carlos Gatti na Enciclopédia Castellano‑Guarani e Wilson
Galhego Garcia na sua tese de doutorado Introdução ao Universo
Botânico dos Kayová de Amambai. Entre os Kaingang e Xokleng,
quando se pesquisar mais, deverá ocorrer o mesmo.
O modelo de subsistência Guarani obedece as mesmas regras de outros
indígenas da América do Sul, com um impacto ambiental considerado de
pequena escala, resultante da abertura de clareiras para instalar
roças, coleta de plantas alimentícias, medicinais e para matérias
primas. Há, também, a caça restrita de diversas espécies para
alimentação e animais de estimação. A dieta Guarani é
predominantemente vegetariana entre 60 e 70 %, sendo as carnes uma
alternativa nos períodos de desequilíbrio causados por mudanças
inesperadas.
Este modelo de subsistência possui um manejo econômico positivo,
pois está fundamentado na renovação racional dos recursos naturais.
Os Guaranis não vivem em áreas campestres ou completamente
desmatadas, mas em clareiras e, o seu modo tradicional de vida, seus
principais conceitos, estão relacionados ao interior das florestas.
Porém, é óbvio que exploram os diferentes nichos que circundam seus
territórios. O mundo sem as matas é inconcebível para os Guaranis.
Conforme as datações em Carbono 14, os Guarani viveram pelo menos
desde o Anno Domini nos vales do Jacuí, do Paranapanema e
muitas outras áreas do sul do Brasil. Apesar deles terem ocupado por
mais de 1.500 anos áreas SEMPRE florestadas, como atestam seus
equipamentos encontrados nos sítios arqueológicos, foi depois do
genocídio causado pelos europeus que estes territórios “tradicionais”
viraram imensas pastagens e lavouras. Junto com o extermínio, os
territórios indígenas “tradicionais” encolheram até absurdos espaços
de 1 hectare.
Nos últimos 500 anos o aumento da população brasileira, em
detrimento dos indígenas assassinados com epidemias, guerras,
escravidão e diversas formas de inviabilização cultural, não
conseguiu extinguir os Guarani, Kaingang e Xokleng. Isto prova como
estes povos resistem diariamente às tentativas de inviabilização
proferidos pelos não‑indígenas. Para os menos argutos e ignorantes
da realidade histórica e antropológica dos indígenas brasileiros,
como José Truda, isto é uma prova de que eles não são “índios
aculturados”. Antes de serem aculturados, são privados da
materialização da sua tradição, tendo que dispor de estratégias
capitalistas de sobrevivência, como a venda de cestaria, esculturas,
ou trabalhar como peão, etc.
Esperando se estabelecer definitivamente em lugar propício, muitos
Guaranis cultivam suas roças sem consumí‑las, apenas para reproduzir
suas plantas tradicionais, algumas mantidas há milênios. Não é
desnecessário lembrar que na maioria das vezes eles foram expulsos
de suas terras, perdendo a maior parte de seu “banco de sementes”,
de suas áreas manejadas com plantas para diversos fins, tendo que ir
para áreas desconhecidas e começar do zero. Nessas áreas
desconhecidas, algumas vezes reservas ecológicas, são obrigados a
passar por um longo período de reconhecimento do novo ecossistema,
até que sua roças dêem frutos, tendo que alterar sua dieta,
consumindo mais carne e trabalhando como peão, vendendo cestaria e
esculturas para obter dinheiro e complementar suas fontes
alimentares. Esse desequilíbrio, sempre causado por não‑indígenas,
obriga os Guaranis aumentarem o impacto sobre o ambiente para
complementar a subsistência com mais plantas de coleta, mais caça e,
raramente, em casos mais extremos, acabar cooptado por compradores
de animais e plantas silvestres para obter dinheiro.
Na minha opinião, as áreas de preservação podem comportar
concomitantemente reservas ecológicas e indígenas, desde que se
descubram os meios mais realistas e eficientes para mantê‑los. É
fato, que os indígenas, quando detentores autônomos de seu modo de
vida, não destroem o meio em que vivem. A partir de iniciativas
científicas de ecologistas, indigenistas e indígenas, se poderá
chegar ao meio termo, com vantagens para todos. Muito há para ser
conhecido e discutido, pois os indígenas de que falei viveram pelo
menos dois milênios no sul do Brasil sem destruir os ecossistemas em
que viviam. Enquanto que nós, descendentes dos que imigraram para cá
nos últimos 500 anos, contribuimos diariamente para a destruição e
para o manejo negativo dos ecossistemas naturais.
* O autor é Arqueólogo e Etno‑historiador.
