AgirAzul 9
Padrões de emissão de fontes individuais versus padrões de "Qualidade Ambiental"
Por
Carlos Gustavo Tornquist e
Zeno Simon
Entendemos
que existem argumentos muito fortes a favor dos padrões de emissão
para fontes individuais, como por exemplo:
1.
Objetividade: os
padrões de emissão baseados em disponibilidade tecnológica atual,
economicamente viável são objetivos e portanto, mais facilmente
aceitáveis até pelos próprios empreendedores poluidores. Um padrão
ambiental genérico é muito mais suscetível a questionamentos, dada a
enorme gama de parâmetros que deságuam na sua fixação. Também a
constatação de que os padrões ambientais tornam-se mais restritivos
ao longo do tempo mostra que não há verdade a cerca de uma "qualidade
ideal" do meio ambiente. Esta não só é alterável de acordo com o
conhecimento científico disponível, mas também - e
preponderantemente - pelas pressões políticas e sociais, de caráter
preponderantemente subjetivo.
2.
Transparência: na discussão de parâmetros de emissão para
determinada fonte (ou determinado tipo de fonte como, p. ex., usinas
termoelétricas a carvão) temos menos variáveis a examinar. A
discussão pode ser mais acessível e democratizada - evita-se a
discussão de aspectos científicos complexos ou mesmo esotéricos,
inacessíveis à maioria e o reinado absolutista dos experts e
de toda a sorte de "gurus" geralmente patrocinados pelos poluidores.
Ou seja, é mais fácil provar que um poluente pode (e deve) ser
reduzido em x% na origem, a um custo razoável, do que provar
a existência de uma concentração segura para este poluente no ar de
y%, na água de z% e no solo de w%. Além do que
esta última alternativa exige um custo de investigação muito mais
alto.
4.
Economicidade: os
padrões de emissão controlados na origem tornam-se mais econômicos e
mais justos para a Sociedade, pois desviam a prioridade do
monitoramento - que acaba sendo feito pelo Estado, na linha da "socialização
dos prejuízos" - para o controle na fonte, que pode ser imposto
pelo Estado. Isso gera uma pressão de custo direta sobre os
poluidores, que, eventualmente,
adotarão as medidas de redução na fonte e alterações de
processo que minimizem substancialmente a geração de resíduos
tóxicos e perigosos, quando não as eliminem totalmente.
A avaliação de risco ambiental
As
avaliações de risco ambiental se tornaram um procedimento-chave para
manutenção do status quo dos poluidores mais empedernidos de
nosso planeta. Sua utilização pretende a determinação de quanto dano
ou degradação a Sociedade ou melhor, seus porta-vozes - no caso
alguns tecnoburocratas dos governos e cientistas das mais variadas
origens - vão permitir que seja causado ao planeta. A alternativa
- como a sociedade pode evitar os problemas ambientais na origem,
diminuir a poluição, a degradação já causada ou que vêm sendo
causada atualmente ao meio ambiente - é absolutamente desconsiderada.
As
limitações intrínsecas desses estudos de risco via-de-regra passam
desapercebidas, até porque são simplesmente escamoteadas pelos
legisladores e técnicos governamentais. Além do que, para o cidadão
comum é praticamente
impossível digerir a sofisticação técnico-científica desses
trabalhos e mesmo vislumbrar as repercussões desses estudos sobre
sua vida.
Dentre os
principais "vícios de origem" deste esquema temos:
a. as
avaliações de risco pressupõem que se conhece profunda e
conclusivamente as implicações ambientais da produção e utilização
de qualquer substância tóxica, e que, a partir disso, é possível (e
desejável) estabelecer níveis de contaminação "insignificantes" ou
"de efeito nulo". Na verdade, os dados disponíveis se baseiam em
estudos laboratoriais, muito longe da situação real aonde esssas
substâncias serão lançadas pelo mundo afora - o grande "balão de
ensaio" acaba sendo a própria Natureza, como nos mostram os exemplos
do DDT e das dioxinas (sobre estas últimas, vide página xxx, neste
número)
b. os
autores e executores desses trabalhos em um momento ou outro acabam
se tornando juízes (e, tragicamente, algozes), ao escolher a
contaminação dita "aceitável" para sociedade. Ou seja, eles
podem definir arbitrariamente que um caso (desencadeado por uma
certa substância tóxica) de câncer em 100.000 é aceitável. Mesmo que
tais cifras sejam absolutamente corretas, a população não tem noção
exata do que isso significa em termos práticos - e certamente
ninguém gostaria de ser o "um entre cem mil". Além disso, a grande
maioria das outras espécies do planeta, menos representadas e mais
vulneráveis, não são consideradas nesses estudos.
c. procura-se
avaliar os riscos e danos causados pelo sistema tecnológico médio
vigente, do "business-as-usual", e não daqueles referentes às
melhores tecnologias já disponíveis (o que seria o
"business-as-it-could-be"). Em decorrência disto, muitas destas
acabam não sendo usadas - é mais fácil persistir poluindo com a
pré-cambriana tecnologia "Z", já amortizada, do que dar um salto
tecnológico em direção às tecnologias "limpas", "soft", inteligentes,
ambientalmente benignas.
d.
normalmente se usa uma aproximação cartesiana com relação aos
possíveis danos e problemas ambientais que determinada área sofrerá.
Explicando melhor: ao se estudar o impacto de uma represa sobre uma
bacia hidrográfica, não se considera outros projetos associados e/ou
decorrentes (poderia ser um projeto agropecuário que utiliza água de
irrigação ou uma indústria de papel e celulose, por exemplo): os
impactos ambientais dos dois empreendimentos são, no mínimo,
cumulativos, mas podem até combinar-se sinergisticamente e serem
muito piores do que os previstos e calculados para cada um dos
empreendimentos isoladamente.
