Caça x direitos dos animais: compromisso inadiável
Por Carlos Gustavo Tornquist
Desde o início do movimento pela conservação dos recursos naturais,
antes mesmo de se organizar o Movimento Ecológico, tem sido difícil
a convivência com os grupos preocupados com a vida animal, cuja
origem remonta ao fim do século passado, com a fundação da Sociedade
Anti‑Vivisecção da Nova Inglaterra e a Sociedade para Prevenção da
Crueldade contra Animais de Massachussets nos EUA.
Porém, ao manifesto Animal Liberation, lançado por Peter
Singer em 1975 nos EUA é atribuído o nascimento das organizações que
defendem os “direitos dos animais”. Neste documento, o autor ironiza
o sentimentalismo daqueles primeiros grupos conservacionistas,
identifica os seres humanos como a “espécie‑tirana”, propondo a
igualdade de direitos entre todos os seres vivos com um sistema
nervoso central.
A
partir deste, digamos, referencial teórico, surgem os grupos “militantes”
desta causa como a PETA — People for the Ethical Treatment
of Animals (O Povo pelo Tratamento Ético dos Animais) —‑ que de
tempos em tempos ganha espaço na imprensa internacional por suas “ações
diretas” do tipo libertação de animais presos em lojas ou mesmo
laboratórios de pesquisa, ou por passeatas e protestos contra o uso
de peles como vestimenta.
Os
ativistas destas organizações abordam todas as questões referentes à
vida animal sob uma ótica maniqueísta do tipo “os homens são
essencialmente maus para com os animais”. Estes, por sua vez, são
constantemente endeusados e defendidos inapelavelmente com frases do
tipo, “caçar é imoral e aético” ou “os caçadores são sádicos que
praticam a prepotência biológica”. Estes axiomas, que sustentam a
argumentação dos grupos anti‑caça (ocasionalmente conhecidos entre
os ecologistas como animalistas) não dão margem à
solução dos graves problemas que ameaçam a totalidade da vida no
planeta. Na verdade, esta postura constitui essencialmente uma
religião.
Eis aí o problema: ao se encaminhar a discussão da caça para um
embate de princípios ético‑religiosos, ela se eleva a um patamar
abstrato. Acaba não adiantando a exposição de evidências práticas e
concretas que contrariam a pregação dos animalistas
sobre a caça, e que mostram
haver outras formas de se preservar a vida animal ‑ por exemplo,
países que permitem a caça controlada conseguiram evitar o
extermínio de várias espécies, cujas populações, inclusive, em
muitos casos têm até aumentado. Quando o debate fica só em
princípios , a probabilidade de acordo, de negociação, é
praticamente inexistente.
Entre a condenação radical da caça e a sua defesa incondicional
existe um amplo leque de alternativas, sendo a mais lógica para os
ecologistas aquela que aceita a caça regulamentada apenas de
espécies não ameaçadas, em volume compatível com o aumento ou, pelo
menos, a manutenção das populações existentes, com cobrança de taxas
que revertam para o próprio sistema de pesquisa e controle dos
animais silvestres. Some‑se a estas condicionantes a possibilidade
de intervenção da sociedade civil organizada ‑ os próprios
ecologistas, agricultores e a comunidade científica ‑ na definição
de como vai funcionar e ser controlado o programa de caça
regulamentada.
Mas não se pretende dizer que parte da mensagem dos
animalistas não é essencialmente justa: nenhuma pessoa
sensível deveria aceitar a crueldade no tratamento de qualquer ser
vivo. Mesmo assim, os ecologistas sustentam que é possível caçar de
forma que os animais não agonizem por horas a fio (a não‑utilização
de armadilhas do tipo “leg‑hold” ou armamento inadequado). E, para
quem ainda assim acha a caça inaceitável, lembramos que ela acontece
na própria Natureza: a relação predador‑presa é também, na sua
essência, uma relação caçador‑presa. Como um animalista
veria uma onça devorando uma anta no Pantanal Matogrossense?
Parece que entre os próprios animais, nosso debate já foi resolvido
há muito tempo...
Há
situações em que o julgamento da questão do tratamento dos animais é
ainda mais complicado, como no caso das pesquisas médicas que
necessitam de testes em animais vivos, para que outros sobrevivam ‑
não exclusivamente o homem, pois aqui se incluem também pesquisas
veterinárias. Muitas pesquisas originalmente feitas em seres vivos,
e que sofreram pressões contrárias dos animalistas,
hoje se beneficiam de técnicas biotecnológicas, cujos repercussões
ambientais não são bem conhecidas e trazem outras ameaças potenciais
aos ecossistemas naturais.
Talvez o melhor exemplo da diferença de postura entre ecologistas e
animalistas, esteja na conhecida (e bem sucedida)
campanha do GreenPeace, encetada no final da década de
oitenta, que se voltou contra a matança de focas (as “babyseals”) em
Newfoundland, Canadá. A campanha de mídia realizada bem poderia ter
sido produzida por algum grupo animalista: mostrava
foquinhas recém‑nascidas sendo trucidadas a pauladas em grande (e
sádico) estilo pelos caçadores da região, frente às câmeras de vídeo,
enquanto os ativistas da organização ecológica pulverizavam tinta
indelével sobre outras focas, salvando‑as na medida em que suas
peles tornavam‑se imprestáveis para o comércio.
Quando a Comunidade Européia (principal mercado para o produto)
baniu a importação das peles de foca, a campanha dos ecologistas do
GreenPeace chegou ao fim ‑ estava assegurada a sobrevivência
da espécie, ao menos em relação a esta ameaça específica. De outra
parte, os animalistas prosseguem até hoje ‑ e assim
provavelmente continuarão, enquanto houver ainda uma única foca
sendo caçada, uma única pele sendo comercializada no mundo, enquanto
ignoram os muitos outros graves problemas ambientais que afligem
aquela região.
No
Rio Grande do Sul, a AGAPAN ‑ usualmente vilipendiada pelos
animalistas por tomar uma postura favorável à caça
regulamentada ‑ move ação civil pública contra a introdução de
crocodilos nilóticos, estabelecido ao arrepio da lei. Entre as
medidas exigidas na ação está o sacrifício imediato de todos esses
animais (caso a primeira opção, a remessa de volta ao seus rincões
de origem no Zimbabwe, não seja viável), para evitar o risco de fuga
desses répteis africanos para o ecossistema lagunar próximo ao
criatório, onde provocariam danos inimagináveis.
Outro caso‑exemplo mostrando que a diminuição de populações através
da caça pode ser muito útil na manutenção dos ecossistemas naturais
ou até na sua recuperação: nas campanhas australianas para o
controle das populações de lebres, introduzidas pelos primeiros
colonizadores e que causaram grandes estragos aos ecossistemas
locais, foram usadas desde iscas envenenadas, tiros e até
microorganismos patogênicos para diminuir as populações
incontroláveis desses lagomorfos.
E,
dentro da mesma filosofia, têm havido campanhas de controle para as
caturritas no Rio Grande do Sul, que se multiplicam assustadoramente
devido à diminuição dos predadores ‑ esta causada preponderantemente
pela destruição dos seus tradicionais locais de nidificação, não
pela caça ilegal.
Uma conclusão inevitável para todos os que estão preocupados com a
preservação da Vida ‑ e não só a vida animal, como os
animalistas, que, aliás, em mais uma gritante contradição,
mostram total desprezo pelos peixes ‑ é de que o cuidado com o
bem‑estar dos animais é plenamente compatível com o enfoque que vem
sendo proposto pelos ecologistas na mobilização por uma nova relação
dos homens com a Natureza. Mais do que isto, é absolutamente
desejável.
Nem por isso podemos perder o fio da meada, executando o
samba‑de‑uma‑nota‑só dos animalistas, sempre em torno
exclusivamente da denúncia do sofrimento individual de algumas
espécies animais. A grande ameaça que paira sobre todas as espécies,
sem exceção, é a perda dos seus habitats, de suas mínimas condições
de sobrevivência, da sua variabilidade genética, não a caça
regulamentada ou a pesquisa médica com animais. Se mantivermos uma
visão abrangente do que se passa com o planeta, nossas prioridades
de atuação serão muito menos religiosas, mais “ecossistêmicas”,
menos restritas a esta ou aquela espécie dentre a infinidade de
seres que habitam o planeta.
Referências:
1. KNOX, Margareth. “The Rights Stuff”. BUZZWORM ‑ The
Environmental Journal, (3) 3, Maio/Junho 1991.
2."A AGAPAN continua contra a caça indiscriminada", Sobrevivência,
nº 2, Maio/Junho, 1991. pág.5.
* O autor é vice‑presidente, licenciado, da AGAPAN ‑ Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural.
