A ATUAÇÃO DO ESTADO
Vivenciando a Polícia Florestal gaúcha
Por Heinrich Frank*
Fui convidado a abordar a questão do
policiamento ambiental exercido pela Brigada Militar e tentarei me
desincumbir da tarefa como posso — será pela ótica de um ecologista
(tem gente que se recusa de ceder‑me este adjetivo) que trabalha
junto à Brigada Militar há três anos de forma intensa. Como
ex‑caçador (pratiquei caça amadora por cinco anos) e ex‑pescador
(por mais de 15 anos), sei muito bem como se comportam caçadores e
pescadores em campo, pré‑requisito este que facilitou muito o início
da fiscalização.
HISTÓRICO
Fundado em 1989, o Grupamento Florestal
da BM efetivou‑se através de um convênio com o IBAMA e ocupou o
prédio da sua garagem, na rua Baronesa do Gravataí, em Porto Alegre.
Contava com aproximadamente 65 homens comandados pelo Capitão Ivan.
Destacou‑se, neste período, o episódio em que o Tenente Adelar
Anderle, um dos mais dinâmicos do Grupamento, foi “chutado” do mesmo
após “ferir os brios” do dentista Palombini, à época Secretário da
Agricultura, que se desagradou de ouvir algumas verdades sobre o
Parque de Itapuã.
Mais ou menos na mesma época, em ação
paralela e independente que ocorreu em 1990/91, através do
subtenente Gilberto, amante de barcos, efetivou, no âmbito do 5º
Batalhão de Polícia Militar ‑ BPM, de Montenegro, a PATRAM ‑
Patrulha de Água e Mananciais. Através de doações de empresas e
Prefeituras, conseguiu‑se estabelecer quatro barcos com bons motores
‑ 25 a 40 HP ‑ fiscalizando os rios Caí, Jacuí e Taquari.
Em 1992, após a substituição do capitão
Ivan Ceroni pelo capitão Carlos Nogueira, o Grupamento foi
transferido para o Regimento Bento Gonçalves (4º Regimento de
Polícia Montada) na av. Aparício Borges, no Partenon, em Porto
Alegre.
As ações ambientais foram quase
totalmente substituídas por policiamento normal no Presídio Central,
na FEBEM, na CRT, no Grupamento Aéreo, na casa do vice‑governador,
etc. Só continuou o plantão permanente no Parque de Itapuã, as ações
com a ASCAPAN e algumas ações esporádicas com a SMAM. Ali,
integrado no 2º Esquadrão, o Grupamento tem aproximadamente 80
homens.
Em 1993, o Grupamento passou por um
Curso de Atualização e Reciclagem com 2,5 meses de duração, passando
a chamar‑se Esquadrão Ambiental. Em março daquele ano ocorreu o
primeiro CEPAM — Curso de Especialização em Policiamento Ambiental.
Baseado num convênio FEPAM/BM, teve três meses de duração e foi
ministrado a um tenente e um sargento de cada um dos 30 Batalhões do
Estado. Uma vez terminado o CEPAM, as duplas voltaram às suas
Unidades com a missão de formar ali uma Patrulha Ambiental (PATRAM)
com entre 11 e 29 soldados. Isto ocorreu realmente até a metade de
janeiro de 1994, de maneira que há agora, em cada Batalhão, um grupo
de policiais capacitados a atuar em policiamento ambiental. Cabe
lembrar aqui duas facetas importantes da questão:
a) a instituição das PATRAM's só se deu
após longa e silenciosa quebra de braço interna na BM entre duas
correntes; uma defendendo a criação de um Batalhão Ambiental
centralizado, como há em muitos outros estados brasileiros, e a
outra corrente optando pelas patrulhas baseando‑se na boa
experiência do 5º BPM e no custo menor de manutenção das mesmas.
b) Como as PATRAM's foram instituídas
pelo QG da BM (mais especificamente pelo Grupo de Trabalho na PM‑3),
restou aos comandantes dos Batalhões apenas acatar as ordens. Como
há falta de efetivo para o policiamento normal e alguns comandantes
não têm experiência pessoal em fiscalização ambiental, nota‑se e
ouve‑se comentários da pouca disposição destes comandantes em
empreender, por conta própria, ações ambientais.
No início de 1994 assume o Comando do
Esquadrão Ambiental o capitão Binotto, mais ou menos
concomitantemente à expedição de três novos Decretos do Governador
Collares que instituem e regulamentam a função de Polícia Florestal
da Brigada. Com o advento das ações individuais das PATRAM's do
Estado, a orientação do Esquadrão é a atuação na Região
Metropolitana e em operações especiais, do tipo Nonoai ou queimadas.
É importante lembrar a atuação do
Grupamento/Esquadrão na Operação Golfinho. A primeira atuação foi
ainda na gestão do capitão Ivan, no verão 91/92, com três equipes
(Cidreira, Tramandaí e Torres). A segunda oportunidade foi no verão
93/94, com resultados excelentes (centenas de redes apreendidas).
EXPERIÊNCIA DA ASCAPAN
Como responsável pelo Departamento de
Campo da Associação Canoense de Proteção ao Ambiente Natural ‑
ASCAPAN, comecei a trabalhar com o Grupamento Florestal em 1990
usando dois barcos de minha propriedade. Foram saídas históricas e
pioneiras, causando choques no pessoal do rio Jacuí, que nunca
tinham visto a Brigada Militar atuando no rio e nas ilhas. Algumas
vezes o trabalho se fez de carro mesmo e, a partir de agosto de
1991, trabalhamos sistematicamente cinco dias por mês com o
Grupamento. Dois dias por mês, o trabalho é no Parque Estadual Delta
do Jacuí financiado pela Fundação O Boticário de Proteção à Natureza
através de três projetos sucessivos.
Inicialmente, pedia‑se equipes com dois
dias de antecedência, até consolidar‑se o esquema de calendário
mensal.
Houve muitos contratempos e
dificuldades. Minha inexperiência pessoal em fiscalização e a falta
de equipamentos produziram muitos episódios dos quais a gente ri —
hoje. Pernoitar dentro de um barco com mais de 200 mosquitos como
companhia, pegar chuva em barco aberto a 30km/h, tiritar de frio em
viagem com temperaturas a 4ºC, suar sem parar durante horas em dias
tenebrosamente quentes no verão, dormir no chão de um banheiro em
desuso, improvisar lanches e refeições nas condições mais diversas
possíveis, descascar a pele das nádegas de tanto sentar em banco de
barco de alumínio em dias de sol forte — enfim, foram vivências que
não vou esquecer nunca mais.
Os brigadianos aguentaram tudo com um
estoicismo admirável. Normalmente bons cozinheiros, desprovidos dos
equipamentos mais elementares (que compramos para eles usarem) ‑
luvas, botas, touca, etc.., tiveram e têm um desempenho muito bom. O
clima das saídas sempre foi muito saudável, sem gritos, tiros,
correrias, bebedeiras, agressões, etc. Por ano, calculo, eles
tiveram que puxar a arma em três ou quatro oportunidades e em uma
duas atiraram para cima, advertindo. Mesmo caçadores de arma em
punho são rapidamente convencidos a largar tudo. O uniforme da
Brigada impõe um respeito absoluto e imediato, valendo, em campo,
muito mais do que qualquer colete de outra autoridade — Polícias
Civil, Federal, Naval, DNPM, FEPAM, IBAMA — com os quais também já
trabalhamos.
Problemáticos são os atrasos que volta
e meia ocorrem: a gente marca 8 horas e acaba saindo só às 8h30min
ou até 9 horas. Para evitar isso e para ter pronta uma equipe às 5h
da manhã no verão, por exemplo, já optei muito em pernoitar com a
equipe completa. Assim, é garantido. A comunicação interna da BM
também é complicada: entre o comandante do Batalhão que recebe o
pedido de equipe e os policiais que integram a mesma perdem‑se
frequentemente dados importantes como hora da volta, dicas
adicionais, etc. Já tive equipes de dois soldados, ao invés de três,
horários alterados, locais trocados, pedidos que sumiram, etc. A
solução encontrada foi deixar com o sargento ou cabo que escala as
equipes uma cópia do ofício que foi ao comandante no mesmo dia em
que o mesmo recebe.
ATUAÇÃO DAS PATRAM's
Não tive dificuldades em integrar‑me às
PATRAM's do 17º BPM de Gravataí e do 15º de Canoas, com os quais
trabalhamos agora rotineiramente. A receptividade foi muito boa, o
desempenho em campo dos PM's excelente (atravessar valão de arrozal
com água até o peito atrás de caçador clandestino? Não tem
problema!). Estamos trabalhando tanto de barco como de carro com
eles e esta cooperação tem mostrado resultados muito bons nos poucos
meses em que existe.
Principalmente o “Correio do Povo” é
pródigo em notícias sobre a atuação das patrulhas. Através dele sei
que a PATRAM de Alegrete, junto com o Eliseu Moraes, da Fundação Rio
Ibirapuitã, tem feito um bom trabalho. O mesmo ocorre em Santa
Maria, vez que outra junto com a ASEPAN. A União Protetora
dos Animais de Erechim (UEPA) prometeu trabalhar junto com a PATRAM
de lá na repressão à caça clandestina. As PATRAM's de São Borja,
Livramento, Canela e região de Nonoai também freqüentaram o
noticiário. A PATRAM de Gravataí tomou a si o controle do Parque de
Itapuã.
Por outro lado, recentemente, um major
da região de Santo Ângelo anunciou a desativação da Patrulha de seu
Batalhão até que conseguisse equipamentos — pick‑up, barco com
motor, binóculos, etc. —. Parece, como sempre nestas situações, que
a coisa não é tão quente quanto parece, mas a falta de equipamentos
realmente está entravando a ação das patrulhas. No caso do Esquadrão
Ambiental, a ASCAPAN investiu mais de U$ 300,00 em consertos
e equipamentos para que se viabilizasse uma patrulha permanente no
Parque do Delta do Jacuí, mas esta evolução está recém iniciando.
De uma maneira geral, tenho a impressão
de que a atuação das patrulhas nos diversos batalhões depende de uma
pessoa ou entidade interessada que, sabendo o que quer e o que dá
para fazer, faz a máquina funcionar. Este pode ser, em alguns casos,
o papel das entidades ecológicas.
AVALIAÇÃO GERAL
Como caçador e pescador conheci a
fiscalização do IBDF e nunca tomei conhecimento da fiscalização da
SUDEPE. A fiscalização do IBDF, pelo menos na época, parecia
constituir‑se apenas de barreiras de estrada durante a temporada de
caça amadora. Certamente havia mais do que isto, mas não me lembro
de nada que sobressaísse. A SUDEPE, como fiscalização, não existia.
Talvez em Rio Grande houvesse algo, mas a ação nunca se fez sentir
na Região Metropolitana onde os pescadores clandestinos são amadores
e tem só algumas redinhas pequenas.
Considerando que o IBAMA resultou da
fusão do IBDF com a SUDEPE, o resultado continuou sendo a mesma
coisa: nas ocasiões em que precisávamos de fiscal do IBAMA surgiam
obstáculos enormes e a experiência negativa de outras entidades,
como a UPAN ‑ União Protetora do Ambiente Natural, nos
desestimularam de vez.
Desta forma, o quadro atual é o melhor
que já tivemos no Estado em termos de fiscalização ambiental: em
qualquer canto há uma patrulha a qual se pode apelar para ajuda. A
inexperiência e a falta de equipamentos das equipes são obstáculos a
serem transpostos, exigindo, de nossa parte, um esforço concentrado.
Não se pode colher bergamotas de uma
muda que recém está mostrando algumas folhas.
*O autor é geólogo; diretor da
ASCAPAN ‑ Associação Canoense de Proteção ao Ambiente
Natural<F255D>.
Caixa Postal 383 ‑ 92001‑970 Canoas, RS Brasil.
Fone: (051) 3472‑5685.
