AgirAzul 6
Depoimentos
-
painel com Ecologistas mostra o que foi a Conferência do Rio de
Janeiro
Parte 3 (final)
O lançamento do AgirAzul ‑ Boletim Ambientalista
foi realizado em 23 de junho de 1992, na Cooperativa
Ecológica Coolméia, em Porto Alegre, com um painel sobre a Rio
92. Participaram parte dos ecologistas gaúchos que estiveram na
Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e
Desenvolvimento e o Fórum Global. Estiveram presentes:
Magda Renner, presidente da ADFG‑Amigos da Terra ‑ seção
brasileira da Amigos da Terra Internacional, Hilda
Zimmermann, representando a Sociedade Amigos da Amazônia
Brasileira, Arno Kayser, representando o Movimento Roessler,
e José Antônio Lutzenberger, diretor da Fundação Gaia e
ex‑secretário de meio ambiente da presidência da República. Outras
entidades, embora convidadas, não se fizeram presentes. Como
anfitriã, pela Coolméia, atuou a agrônoma Glaci Campos Alves.
AgirAzul publica a terceira e última parte do painel,
— a primeira parte foi publicada na edição número 2 deste
Boletim e a segunda na edição número 5.
Cabe ressaltar que a transcrição da gravação manteve o mais
possível a forma de linguagem falada. Nesta última parte colocações
são feitas por Hilda Zimmermann, José Antônio Lutzenberger, Jairo
Menegás e Maurício Farias.
ZIMMERMMANN
‑ É culpa do branco que foi introduzir...
LUTZENBERGER
‑ Eu não tô dizendo, não tô culpando eles. Eu estou dizendo quais
são os fatos. É claro que fomos nós que fizemos isto. Mas os índios
do RS, a reserva deles, não é mais uma reserva
indígena. É tudo terra de agricultor. O único futuro que
estes caras têm é na agricultura.
Lá em Santa Catarina, também, onde visitei recentemente. Eles
ainda guardam seu idioma, algumas poucas coisas da sua religião
tradicional, mais praticamente nada. São cristãos.
ZIMMERMMANN
‑ Já os guaranis preservam tudo, Lutz. Tens que ir a uma área dos
guaranis. Eles preservam a língua, a religião, tudo.
LUTZENBERGER
‑ Mas se nós deixarmos
eles entrarem na reserva do Turvo eles vão derrubar tudo.
ZIMMERMMANN
‑ Nunca mais deixaram entrar ..
LUTZENBERGER
‑ Neste caso não podemos deixar entrar nesta reserva florestal
porque estes caras não são mais índios. Eles são uma espécie de
cigano, uma cultura que não se integra de todo, mas que está
parcialmente integrada. A parte que mantém uma certa coesão social,
comunitária, que neste sentido merecem toda a proteção. Mas nós
temos que distinguir entre este tipo, é claro..
ZIMMERMMANN
‑ Temos que proteger as áreas deles..
LUTZENBERGER
‑ Claro que temos que proteger as áreas deles, mas eu quero mostrar
que são duas coisas distintas. Não podes igualar este índio lá do
Turvo com uma tribo ainda intacta, por exemplo, certas tribos
Yanomamis que estão intactas e outras já não estão. O David Yanomami
fala português fluentemente e é cristão. A mente dele foi feita por
missionários, hoje ele se conscientizou que tem que defender seus
índios também. E no meio destes dois extremos, há os Caiapós.
Aqueles índios lá estão contactados há mais de 20 anos, se não me
engano, e já estão totalmente desmoralizados pelos brancos. Eles
passaram este tipo de processo que expliquei no experimento mental.
Hoje eles acham que devem vender sua madeira, para ficar ricos.
Claro que lá no meio deles têm muitos que protestam e são contra.
Então nós temos que olhar o índio de maneira distinta de um lugar
para outro, conforme o nível de aculturação ou não. Eu acho que
agora deve ser feito um trabalho para reconverter eles a um estilo
de vida sustentável, porque o que eles estão fazendo vai acabar com
aquela reserva. Eu conheço outra tribo, os Terena, lá do Mato Grosso,
que até me declararam cacique honorário. Ali nós temos outra
situação, mais parecida com as dos índios daqui.
Eu acho fundamental essa coisa. Temos que distinguir e não
adorar, simplesmente, como está acontecendo. O Paiakan nunca deveria
ter recebido aquele prêmio, quando ele já estava fazendo coisas
deste tipo que está fazendo hoje. Para compreender o que está
acontecendo hoje, nós não podemos colocar tudo numa linha só. Os
índios também são muito diferentes entre si, não é tudo santo não.
Há uma situação em cada caso.
AgirAzul ‑ Temos aqui outras pessoas que
também estiveram no Rio de Janeiro. Gostaria que elas usassem da
palavra e depois outras pessoas livremente.
MENEGÁS
‑ Eu vou fazer um comentário rápido. É a questão do agricultor
francês, do adubo, lutando pela questão do subsídio, questão do
GATT. Eu acho que é uma questão muito importante para a gente
analisar como o governo brasileiro está se comportando em relação a
isto. Nós estamos entrando justamente numa linha, que é puxada pelos
Estados Unidos, neo‑liberal, em que a agricultura não pode mais ser
subsidiada em lugar nenhum do mundo. Sendo que nos EUA ela é
subsidiada pela Universidade,
através da política de preços mínimos, que existe na política
de preços dos EUA, e o governo brasileiro está à favor desta
política. Na realidade, acho que nós deveríamos ter mais claro se
não é necessário a gente subsidiar de alguma forma, e de que forma
subsidiar, porque sempre tem aquela questão da corrupção do que
governa, então, gostaria de ouvir a opinião.
LUTZENBERGER
‑ Essa coisa é complicada. Na Europa, onde o subsídio para a
agricultura é incrivelmente alto, ele não tem ajudado o agricultor.
Oitenta a noventa por cento do subsídio acaba na indústria e
no beneficiamento dos alimentos, na indústria química e na
indústria do maquinário.
Ainda hoje, na França, as últimas regiões, p. exemplo, no Noroeste,
onde ainda tem, a gente passa de avião e vê a paisagem dividida em
pequenas propriedades muito lindas com as cercas vivas e tudo, ou
que eu vi agora, na Espanha, umas quatro semanas atrás, na região de
Tordesilhas. Na Europa está havendo uma gigantesca marginalização de
agricultores. Na Espanha, na própria Alemanha, diariamente, algumas
centenas de agricultores têm que abandonar sua terra. Nos Estados
Unidos, na França a mesma coisa. Essa política de subsídio que está
sendo feita é uma ilusão para o agricultor.
Quem ganha mesmo são os grandes e a indústria. O pequeno e o médio
agricultor está sendo marginalizado, um após o outro.
Na Alemanha Ocidental existia, no ano de 1950, 1.800.000
agricultores, hoje são 650.000 e está baixando. E o alvo é chegar
aos 500.000 e se acontecer essa coisa que eu falei há pouco vai a
muito menos. Nos Estados Unidos, no Canadá, havia uma agricultura
camponesa. Muito rara a propriedade nos Estados Unidos que tinha
mais de trinta, quarenta hectares. Nunca houve, a não ser no sul,
aqueles grandes latifúndios como no nosso país.
Hoje, estão todos em dívida, em situação
precária, não conseguem ganhar os juros das dívidas que têm.
E milhoes vão cair fora ainda. Na Espanha, estão acontecendo coisas
horríveis. Por exemplo, no sul, na região de Sevilha, na Andaluzia,
tinha uma cultura camponesa belíssima onde os agricultores tinham
oliveiras gigantes, algumas com dois mil anos de idade e debaixo
destas oliveiras um pasto — região bem seca — eles tinham um gado
muito especial, adequado a estas condições. Viviam muito bem.
Quando a Espanha entrou no Mercado Comum essa gente não
conseguia mais competir com o leite, o queijo, e os laticínios da
Holanda, da Alemanha.
Na região que eu visitei recentemente, na região de Tordesilhas,
eles não conseguem mais competir com as batatas alemãs e holandesas.
Os agricultores estão todos abandonando a região.
Vendo a região de Barcelona, na Catalunha, imensas paisagens estão
vazias de agricultores e estão sendo reflorestadas.
E agora no Rio, me disse um alto funcionário do Ministério da
Agricultura da Catalunha, que o alvo do Mercado Comum é transformar
a Espanha toda numa reserva florestal. Vejam só. Então este tipo de
coisa é uma grande ilusão e tem servido somente à indústria. Nós
precisamos uma política agrícola diferente e esta não precisaria de
subsídios. E também não se trata de tirar a terra do grande e dar
para o pequeno: se nós fizermos uma política diferente, de
simplesmente não prejudicar o pequeno ‑ o pequeno sempre foi
prejudicado ...
No preâmbulo das discussões do Mercado Comum Europeu tem uma frase
que diz bem claro que a intenção era manter os preços agrícolas
sempre baixos para que o nível de vida do agricultor fosse tão baixo
de forma que grande parte abandonasse suas terras porque se
precisava de mão‑de‑obra barata para a indústria e ao mesmo tempo
comida barata na indústria. Aqui
se fez sempre esta política.
Simplesmente se tivessem deixado as leis do mercado fazer os preços
dos alimentos, estariam bem diferente. Mas os alimentos sempre foram
subsidiados pro consumidor: o leite, por exemplo. E depois o mercado
é açambarcado por poucas empresas que se dizem cooperativas, mas
muitas vezes nem são. Nós temos que repensar completamente esta
coisa. Não é com subsídio que se vai resolver isto. É com uma
política diferente que reconhece a necessidade de uma agricultura
biológica, diversificada e camponesa. Os subsídios servem hoje ao
agrobussiness. Isto está claro no mundo inteiro. E no Brasil
estão querendo exatamente isto.
FARIAS
‑ Queria que o Lutz comentasse sua passagem pelo governo Collor, em
que isso pode se relacionar com o movimento ecológico.
LUTZENBERGER
‑ O Collor me ofereceu um espaço que eu não podia, em sã consciência,
não aceitar. Quando o Collor me chamou, para mim foi a decisão mais
difícil e mais dura da minha vida. Eu nunca quis ser governo, sabia
que ia ser uma coisa horrível para mim, e foi. Como é que eu podia
dizer não? Ele me deu um espaço. Eu aproveitei esse espaço durante
dois anos. Durante esse tempo inclusive aconteceu que grande parte
do movimento ambiental se virou contra mim, queriam que eu falasse
mais com eles, que eu falasse todo dia o que eu estou fazendo; ao
contrário, trabalhei principalmente detrás dos bastidores, falando o
mínimo possível. O Brasil foi decisivo no Tratado da moratória da
Antártida. Eu não podia chegar para a imprensa e dizer: olha, eu tô
trabalhando a cabeça do Collor para ele assinar essas coisas; e
quando ele assinou de jeito nenhum posso chegar e dizer, meu Deus,
aí não acontece mais.
Uma coisa que me deu uma grande satisfação: agora, na Conferência, o
Ministério da Justiça desse governo que me botou prá rua me entregou
um troféu, agradecendo a minha ação decisiva na demarcação da terra
dos ianomânis. Tem um troféu lá em cima da minha mesa, me foi
entregue pelo Ministro da Justiça. Olha só. Eu já vi gente dizer,
por exemplo, o embaixador brasileiro em Londres, chegou a dizer para
amigos meus, quando o Collor assinou o decreto que dá aos ianomânis
noventa mil quilômetros quadrados, do tamanho de Portugal, né: puxa,
quanta terra pra tão pouco índio! Mas ele pensou e disse: não, mas
eu acho que até fica melhor agora, porque agora nós podemos fazer
contrato com os índios, com os ianomânis, para pegar a madeira e o
ouro. Já estava pensando em fazer o que eles fizeram com os caiapós.
Mas o fato está aí e nós podemos cobrar. Isso nós temos que fazer
daqui para diante.
Aquela questão de por uma pá de cal dentro do buraco onde ia‑se
explodir uma bomba atômica: os militares brasileiros não vão mais
fazer uma bomba atômica, por mais pressão que eles ainda tenham não
adianta mais. Angra 1 e 2: ele diz que sim, mas não dá dinheiro. Tá
tudo trancado. Naturalmente agora eu não sei, hoje o Collor não
manda mais. Agora quem manda são os conservadores, outra vez. Mas
também agora não têm dinheiro para essas coisas.
Ainda uns dois meses antes da minha saída eu me neguei a assinar um
decreto importante, de reforma agrária. Já estava a cerimônia, tudo,
pronto, e era ir lá assinar junto com o Ministro da Justiça, o da
Agricultura, e eu, mais o Collor assinar esse decreto. Quando eu li,
eu disse: ah, não assino! Mas como, o senhor tem que assinar, tá
tudo pronto, a cerimônia, a imprensa, tudo. Eu disse: não assino,
não vou. Porquê que eu não assinei? Por que era um novo Pólonoroeste.
Estavam previstos milhares de quilômetros de estrada para dentro da
Amazônia para assentar marginalizados. Não, eu disse, quero ver uma
política agrícola que não marginalize.
Dizem que fui eu, isso é uma grande mentira, que pedi que
bombardeassem as pistas dos garimpeiros, não foi verdade. Eu vivia
dizendo: o que adianta bombardear as pistas dos garimpeiros, nós
temos que dar uma alternativa para o garimpeiro. O garimpeiro é uma
pessoa nobre, quem é que vai para o garimpo? Ninguém vai lá porque
gosta. É um dos trabalhos mais duros, mais perigosos que existem. O
garimpeiro que agüenta um ano ou dois de doença, de sofrimento, de
assassinatos, sai de lá mais pobre do que foi. Quem enriquece são os
“jucás” da vida, os “altinos”, os pilotos e as putas também, mas
essas coitadas morrem depois de AIDS, todas elas, muito ligeiro.
Então, imagina, quem vai no garimpo assim como quem vai ser
agricultor migrante na Amazônia, são, entre os marginalizados, até
os mais empreendedores, os mais inteligentes. Os outros estão na
favela. Lá vai quem tem mais coragem, quem tem mais empreendimento,
quem tem mais vontade de fazer as coisas. Então não adianta combater
essa gente.
Uma briga enorme eu tive com o IBAMA que insistia naquela campanha
da Amazônia. Iam de helicóptero, gastaram milhões, se não me engano
gastaram 25 milhões de dólares, e eu dizia, meu Deus, que
absurdo é esse? Iam nos pequenos agricultores e diziam: pára de
derrubar! Mas o que adianta tu chegares num pequeno agricultor, que
está derrubando cinco hectares de floresta, que é a única maneira
que ele tem de sobreviver? É a mesma coisa que entregar uma corda
para ele se enforcar. É aí que eles iam. Não iam num lugar aonde
eles sabiam que iam levar tiro.
O que nós temos que fazer é uma campanha de extensão agrícola,
ensinar esse pessoal a recuperar a fertilidade de seus solos. Quanto
eu trabalhei a cabeça do Cabrera (N. do Editor: Antônio
Cabrera, então ministro da Agricultura) para isso. Não aconteceu,
mas o Cabrera está disposto a continuar conversando comigo. Vou me
encontrar com ele em breve; nós vamos ainda conseguir alguma coisa.
Se não conseguirmos por lá, nós vamos conseguir dezenas de pequenos
projetos para fazer esse tipo de coisa, com esses industriais, por
que não? Deixa eles financiarem. Os incentivos para a Amazônia
também caíram. Parece que tem ainda alguns tipos de incentivos
industriais.
Tive alguma coisa a ver com isso, mas eu só podia fazer isso detrás
dos bastidores; mesmo isso que estou dizendo aqui agora não pode ir
para a imprensa, meu Deus! Eu ainda tenho canais bons para mexer lá
um pouco. Eu fui o único cara que saiu bem de lá, e no momento certo.
Eu saí porque denunciei corrupção; os outros saíram por corrupção.
Então, nós podemos ainda conseguir muita coisa, se o movimento
ambiental coordenar bem e fizer pressões certas, e atacar nos
lugares certos. Não adianta perder tempo com coisas pequenas, nós
temos que perder tempo lá onde é importante.
Agora, o maior problema são as madeireiras na Amazônia. A derrubada
já não é tão grave. Vejam, em 87, é bom lembrar esses dados, foi o
auge da devastação na
Amazônia, em 87‑88; em 87, tenho dados daquele ano, foram derrubados
— não confundir com queimadas, agora recentemente houve de novo uma
confusão, isso é muito importante entender, as queimadas no Brasil
continuam aumentando violentamente, como estão aumentando aqui no
Rio Grande do Sul, isso é uma doença mental contagiosa que deu nesse
povo, não sei de onde vem isso. Brasileiro não pode ver vegetação
seca, mete fogo. Ultimamente estão metendo fogo até nas plantações
de eucalipto, coisa que antes eles ainda respeitavam, até isso eles
estão queimando.
Viajem por qualquer estrada aqui no Estado, a gente só vê fogo no
verão, ou sinal de fogo. Mas isso é uma coisa. Outra coisa são as
derrubadas. Em 1987‑88,
quando nós estávamos filmando com Adrian Cowell, em Rondônia, eu
estava convencido de que nós não íamos mais salvar a Amazônia.
Naquele ano foi derrubada uma área do tamanho de Portugal, e a taxa
era exponencialmente crescente. Nós estávamos convencidos de que no
ano seguinte iam derrubar pelo menos 50% mais. Mas já no governo
Sarney, no último ano, e isso é mérito de um cara que vocês devem
conhecer, o Mesquita. O Mesquita enrolou o Sarney, o Sarney nem se
deu conta. O Fernando Mesquita, essa coisa de bom ele fez. Ele
conseguiu que o Sarney assinasse um decreto acabando com os
subsídios. Isso foi feito antes do governo atual. O Collor só deu
mais força para isso. Com isso, baixou a taxa de derrubada de
floresta pelos fazendeiros, continua a dos pequenos agricultores.
Mas os fazendeiros são os que derrubavam dez mil, vinte mil,
cinqüenta mil, cem mil hectares num pedaço só, para botar gado. Isso
acabou, ou baixou violentamente, também por causa da crise econômica,
os caras não têm dinheiro para fazer derrubadas. Então, os dados
mais recentes são os seguintes: 90 mil quilômetros quadrados em 87,
89 foi parecido, mas já começou a baixar, no ano 90 foi 14 mil
quilômetros quadrados, diminuiu 80%, e no ano passado, 91, foi, se
não me engano, 10.800 quilômetros quadrados. Olha,
se nós olhássemos a Amazônia como um todo, são quatro milhões
de quilômetros quadrados, 10 mil quilômetros quadrados é um
quatrocentos avos, está bem dentro da recuperação natural, nesses
termos, se essas áreas fossem abandonadas de novo. Nós temos hoje na
Amazônia quatrocentos
mil quilômetros quadrados de áreas já deflorestadas, dez por cento.
Hoje, eu tenho esperança de que nós vamos salvar 85 a 90%, 85% pelo
menos da Amazônia. Tenho certeza de que nós vamos salvar. Agora, o
grande perigo nesse momento não é mais nas derrubadas. Claro que
elas são importantes, nós não podemos dormir tranqüilos. O problema
grave agora está na madeira. Eu, conscientemente, não me preocupei
muito com a madeira, nesses dois anos, só nos últimos seis meses,
porque eu estava convencido de que a questão da madeira na Amazônia
não era tão grave, com a imensidão da Amazônia, comparando com o que
está acontecendo na Malásia. Aqueles índios de que falaste são os “penem”,
quer dizer, índios não, mas eles têm uma cultura muito parecida com
a dos nossos silvícolas, são silvícolas também.
Lá, são as madeireiras que vão acabar, e agora está acontecendo uma
coisa horrível na Sibéria. Meu Deus do Céu! Nem é bom pensar. Mas eu
vou voltar para a Amazônia. Mas quanto a isso, ainda, o ano passado
(1991) eu tive o grande privilégio, a alegria de voar sobre toda a
Sibéria, de Copenhagen até Tóquio, tu atravessas a Sibéria toda,
atravessa os Montes Urais, tudo. A floresta ainda está quase intacta.
É algo incrível. Lá é uma outra Amazônia, uma Amazônia fria, gelada,
mas está quase intacta. Não mais. Depois do colapso da União
Soviética, com aqueles funcionários comunistas todos transformados
em capitalistas aproveitadores rápidos, exploradores, estão sendo
trazidos japoneses e coreanos lá para dentro; tem mais de quarenta
mil japoneses e outro tanto de coreanos dentro, roubando com toda a
velocidade possível para tirar a floresta de lá. Nem é bom pensar.
Isso é outra briga em que nós temos que entrar. Mas felizmente as
entidades européias já estão se dando conta disso.
Mas hoje, na Amazônia, se tu vais a Belém, num raio de 500
quilômetros já não se encontra mais mogno. O mogno, na floresta, de
pé, vale de 4 a 5 mil dólares; então, vale a pena para o madeireiro
entrar na floresta com aquelas máquinas pesadas onde a roda tem o
tamanho desta sala, abrir uma estrada de 3 quilômetros para tirar um
mogno.
E para fazer essa estrada, faz um estrago violento. E depois que
abriu essa estrada aí entra o colono, entra outro madeireiro que
tira as madeiras mais baratas, e aí o troço vai embora. Não tem como
segurar.
E foi aí que eu descobri uma coisa que nunca me diziam. Eu vivia
cobrando; por que eu troquei, mudei três vezes a presidência do
IBAMA? Dizem que eu fui omisso, que eu não soube administrar bem o
negócio. Eu não tinha nenhuma atribuição de administrador. Eu tinha
o poder de indicar a presidência do IBAMA, mas eu não podia meter a
mão no IBAMA. Eu só podia botar o presidente. Foi o que eu fiz, e
troquei três vezes. A Tânia, e mais tarde o homem em quem eu
realmente achava que podia confiar ‑ mas eu não tinha uma única
pessoa lá em Brasília ‑, o Eduardo, me enrolaram até que eu mesmo
descobri por conta própria que o IBAMA entregava aos madeireiros
pilhas de guias florestais em branco.
Enquanto aqui no Rio Grande do Sul um colono que quer derrubar meia
dúzia de eucaliptos, que ele mesmo plantou e que é para fazer um
estábulo, fazer uma cerca, precisa se incomodar uma semana ou duas,
com o IBAMA, e pagar taxas, e preencher papel, lá eles entregavam em
branco. Aí dei ordem para o Eduardo: anula as licenças todas. E ele
dizia que fazia e não fazia. Levou quatro meses. Aí, quando eu vi
que ele não fazia, assinei um decreto, que não era minha atribuição,
até era meio ilegal eu fazer isso, quem tinha que fazer era o
presidente do IBAMA, mas o presidente do IBAMA se negava a fazer; aí
eu assinei uma portaria que anulava as guias florestais. E aí que
uma semana depois me botaram para a rua. A portaria dava 45 dias
para eles se legalizarem, sabendo que eles não iam poder se
legalizar porque, pela lei, eles só podem receber licença para
derrubar e transportar madeira se provassem que tinham um projeto de
extração sustentável, e ninguém tem isso. Não existe na Amazônia.
Portanto, toda madeireira lá é ilegal. Eu quero agora agilizar a
Fundação Gaia para ela voltar a ser uma entidade de luta
ambiental forte.
Parece que agora o Goldenberg, não tendo coragem de reinstituir as
guias que eu anulei, deixou anuladas, mas deu aos madeireiros um
carimbo. O madeireiro carimba tudo o que quer. É um “free for all”.
Então, é aí que tem um perigo muito maior. Não derruba a floresta; a
floresta de onde eles tiraram a árvore grande, se tu estás num avião
a dez mil metros de altura não vês diferença. Está tudo verde lá.
Mas ela está totalmente degradada, e fácil de ser incendiada. Mais
um detalhe: a biodiversidade na floresta tropical úmida, mais de 50%
dela está em cima das árvores, nas epífitas. Não dá para fazer o que
o Mestrinho diz; o Mestrinho diz: Ah, vamos tirar todas as árvores
grandes e velhas, dar lugar para crescerem novas. Até que vai
acontecer, sim, claro, daqui a cem anos vão voltar essas árvores lá.
Mas se nós levarmos as árvores grandes todas, acabam aquelas
epífitas. E essas não têm mais depois. É preciso um mogno ter 50,
100 anos, para ter aquele jardim aéreo lá em cima, com orquídeas,
bromélias, peperômias, musgos, e tudo quanto é pteridófitas e mundos
de insetos e de pequenos não‑vertebrados e vertebrados, uma coisa
fantástica, lá em cima tem mais biodiversidade que na própria
floresta. Só por isso nós não podemos deixar tirar as árvores assim
no mais.
A única maneira de fazer exploração sustentável da floresta tropical
úmida seria ou por helicópteros ou ... seria muito caro para a gente
tirar os mognos maduros, então tenho que fazer com as minhas árvores
o que eu faço com o gado: o fazendeiro que tem mil reses não manda
as mil todas de uma vez para o matadouro. Ele manda dez por cento
todos os anos, o desfrute. Então nós temos que tirar o desfrute da
floresta. Digamos que eu
queira
aproveitá‑la sustentavelmente. Se o mogno maduro, na várzea, é uma
árvore de 50 anos, então de cada 50 árvores eu posso tirar uma por
ano. Mas aí, se eu fizer esse tipo de
estrada que eles fazem esculhamba tudo, não dá. Só por
helicóptero ou por zepelim, ou como faziam os indianos, no passado,
com elefante. O elefante é um excelente trator, que não causa
estrago. Seria bom até trazer elefante indiano.
Mas agora eu estou propondo um esquema financeiro que o próprio
Banco Mundial gostou, que vai fazer com que nesses quatrocentos mil
quilômetros quadrados já deflorestados, se faça reflorestamento, não
só de curto prazo, como é o eucalipto, que muita gente está fazendo.
O eucalipto é uma árvore que em sete anos está pronta. Até que estão
fazendo reflorestamentos bastante bons, com 30% de floresta nativa
no meio. Mesmo um homem de vinte não planta hoje uma árvore que ele
sabe que vai estar pronta em 50 anos! Daqui a 50 anos nem sei se
estou vivo! Mas eu concebi um esquema financeiro que permite que até
um homem de 65 anos ainda plante árvores que estão prontas em 50 ou
em 100 anos, porque ele vai cobrar à medida que essa árvore cresce.
Então ele tem interesse. Aí nós podemos conseguir que fazendeiros e
outros plantem. Esse é um esquema que está sendo estudado em
organismos internacionais.
Nós temos que achar maneiras de que nessas áreas já deflorestadas
seja feita coisa boa. E as coisas só acontecem se elas têm vantagem
econômica para alguém, senão elas não vão acontecer. E aí nós temos
que fazer a coisa de tal maneira que a vantagem econômica seja
também ecologicamente interessante. Só na região de Carajás são cem
mil quilômetros quadrados de área deflorestada, e só 10% disso foi
destruído pelas aciarias, o resto foi por fazendeiros. As aciarias
pelo menos fazem o carvão usado para energia, e os fazendeiros
destruíram tudo, não usaram nada, fogo em tudo. Mas agora a Vale do
Rio Doce está querendo fazer um grande esquema de reflorestamento, e
eles gostaram dessa idéia. Vamos ver o que nós podemos fazer.
