AgirAzul 6
EM PROTEÇÃO AO AMBIENTE NATURAL
A
Tragédia da Mata Atlântica
Por José Truda Palazzo Júnior e Augusto Cesar Cunha Carneiro*
Faz uns três anos o Governo Federal editou o Decreto nº 99543/90,
que proibiu o corte dos últimos remanescentes florestais da Mata
Atlântica, formação vegetal que ocupava todo o litoral brasileiro,
entrando para o interior.
Em
Santa Catarina, os madereiros, tradicionais gigolôs de árvores que
se agitaram na época, acenando com “prejuízos sociais”, e bastante
se esforçaram para derrubar a essência do Decreto. Em 1992,
considerando que o Decreto era muito “rígido” várias entidades civis,
em colaboração com o Governo, elaboraram o Decreto nº 750, de
10.02.93 (Nota do Editor: publicado
integralmente no AgirAzul número 4). Este foi editado
provisoriamente e como ele não resolve a questão da proteção da Mata
Atlântica, espera‑se profundas modificações.
Este problema que parece complexo tem uma origem tristemente
simples: a ganância e a imprevidência históricas dos setores
econômicos que há décadas vêm auferindo lucros desmesurados com a
devastação de nossas florestas nativas. Frisamos devastação, e não
utilização legítima! Se não, vejamos: a Mata Atlântica constituía
uma enorme extensão de floresta pujante, que acompanhava e recobria
totalmente as serras do litoral brasileiro do Rio Grande do Sul ao
Rio Grande do Norte. Não apenas fornecia madeira, mas abrigava uma
imensa gama de riquezas sociais em outras de suas funções ‑ a
contenção da erosão nas encostas, a regularização e manutenção de
fontes hídricas, a estabilização climática, a diversidade biológica
ali mantida..., todos esses valores de importância social e
econômica poderiam ter sido conservados se a exploração madeireira
tivesse sido realizada com consciência e responsabilidade,
utilizando‑se práticas de manejo sustentado e, principalmente,
replantando árvores das mesmas espécies e em quantidades iguais ou
superiores às abatidas. Tarefas trabalhosas, sim, mas plenamente
exeqüíveis.
Infelizmente, nada disso foi feito pelos exploradores dos recursos
florestais catarinenses. As árvores de madeira nobre não foram
repostas; em seu lugar, quando muito apenas espécies exóticas de
pouco valor, como eucaliptos e pinus, foram plantadas em
monoculturas incapazes de restaurar os benefícios ecológicos da
floresta nativa derrubada. De nada adiantaram os alertas dos
cientistas catarinenses de renome mundial, como o saudoso Padre
Raulino Reitz, ou os constantes relatórios de técnicos solicitando
medidas urgentes para remediar o problema a tempo. Tachados de
alarmistas, estes cidadãos conscientes foram menosprezados pelos
arautos da exploração ilimitada e incontida dos nossos preciosos e
finitos recursos florestais.
O
resultado destas práticas predatórias hoje aí está, visível para
todos: a Mata Atlântica foi reduzida a cerca de três por cento de
sua área original; a terra, desprovida de sua cobertura vegetal,
sofre a erosão que vai empobrecer o solo, comprometer os rios e
agravar as enchentes. Não há praticamente mais nenhuma mata virgem
senão nas encostas mais íngremes e difíceis de explorar. Em outras
palavras, a Mata Atlântica passível de exploração da madeira já
acabou. Os remanescentes que ainda persistem são um mínimo
absolutamente vital para manter os recursos hídricos necessários à
sobrevivência da população que vive ao longo do litoral e da Serra
do Mar.
O
prejuízo social que sobrevirá se permitirmos a destruição desses
últimos redutos de floresta nativa será muito maior do que os custos
localizados que hoje alega sofrer a indústria madeireira, que tanto
já lucrou com o uso (e abuso) do patrimônio florestal.
Agora que não há mais remédio, os interessados no arrasamento dessas
últimas matas tentam imputar ao Governo Federal, em especial ao
IBAMA, a responsabilidade pelo colapso da indústria extrativa e pelo
desemprego setorial daí resultante. Recorrem, inclusive, a todos os
expedientes. Ainda nesta undécima hora os exploradores da mata
nativa, verdadeiros e únicos responsáveis por essa situação, tentam
ocultar seus erros passados e — pior — continuar a devastação em
prejuízos de toda a sociedade.
Não há mais nenhum espaço, pois, para o “jeitinho”, para o acerto
entre amigos, para o favorecimento injusto que permitiu chegarmos a
esta trágica situação. O IBAMA, apesar de pressionado, vinha
cumprindo à risca sua missão de resguardar os últimos resquícios da
Mata Atlântica, em benefício de toda a sociedade catarinense atual e
futura. A comunidade científica e conservacionista internacional
acompanha de perto e apóia firmemente esse trabalho, repudiando a
demagogia política.
O
momento, enfim, é de reflexão. A sociedade como um todo deve
refletir sobre os interesses e atitudes que levaram à liquidação das
matas nativas. E, quem sabe, com essa reflexão possamos evitar que a
tragédia da Mata Atlântica se repita com outros recursos naturais
catarinenses, patrimônio de todo o nosso povo e que nenhum interesse
imediatista tem o direito de dilapidar.
*Os autores são,
respectivamente, presidentes da IWC/BRASIL e da PANGEA ‑ ASSOCIAÇÃO
AMBIENTALISTA INTERNACIONAL.
