AgirAzul 6
Do
Taim ao Chuí entre erros e vaidade
Por Ney Gastal
Ecologia também é arte. Não é bem isso, mas passa perto. Pelo menos
é o que o chamado mercado de livros de arte, no Brasil, parece
acreditar. De uns tempos para cá multiplicam‑se os livros “de arte”
com temas ecológicos. “Livros de arte”, na definição debochada de um
dos maiores editores brasileiros, são livros grandes, coloridos,
bonitos, cheios de fotos, que podem ser folheados em cinco minutos e
cujo texto ninguém lê. Até algum tempo atrás centravam‑se em temas
arquitetônicos ou (realmente) artísticos, de forma que valiam mesmo
principalmente por seu conteúdo pictórico. Problema é que, ao
passarem a registrar temas ambientais, passaram também a pretender
possuir um conteúdo técnico e científico do qual, na maior parte das
vezes, passam longe. Muito longe.
Exemplo? “Do Taim ao Chuí”, fotos de Alex Soletto, texto de Paulo
Nogueira‑Neto, patrocínio da Albarus, edição da Empresa das
Artes, Projetos e Edições Artísticas Ltda., de São Paulo.
Preliminarmente é preciso deixar claro que a parte “artística”, ou
seja, o lado visual do livro é perfeito. Tanto as fotos de Soletto
quanto a programação visual da obra são de primeira qualidade, e
cumprem perfeitamente com os objetivos propostos a um “livro de
arte”. Quer dizer, se você folhear suas páginas em cinco minutos,
olhando as figuras, terá o máximo que o livro pode lhe dar.
Mas se você, ao contrário, for daqueles leitores que busca
informações em tudo que lhe cai nas mãos, bem, aí a coisa complica.
Por absoluta falta de espaço ‑ seria preciso outro livro para
apontar todos os equívocos do citado ‑ vamos passear rapidamente por
alguns de seus equívocos iniciais. Por exemplo: a bela foto da
página seis, apresentando um chamado “caapão de mata da Estação
Ecológica do Taim” na verdade mostra uma estrada fora da Estação
Ecológica. O mapa da Estação publicado na página 10, então, é um
fenômeno. Com exceção da praia (até porque dali prá frente é tudo
mar) praticamente nenhum dos limites que apresenta está correto. De
certa forma, os limites ali registrados seriam os ideais, mas não
foram os estabelecidos. A “vista ampla do grande banhado do Taim” da página 28 mostra, na verdade, uma área particular incrustrada dentro
da Estação, onde o proprietário cria gado. Quem olhar a imagem com
uma lente poderá ver boizinhos e vaquinhas pastando.
O
animal que aparece na página 83, identificado como “zorrilho
ou raposa, também chamado cachorro‑do‑mato (Dusicyon thous)”,
não é nada disso. Na verdade, nem mesmo o zorrilho (Conepatus chinga)
tem coisa alguma a ver com a raposa ou com o cachorro do mato. E o
bicho que aparece na foto é um graxaim do campo (Dusicyon
gymnocercus), que na época da foto estava confinado a um viveiro,
preparando‑se para ser reintroduzido ao ambiente.
Já
o texto em si, fora das legendas das fotos, contém todo o tipo de
erro que você puder imaginar. Desde chamar a UFRGS de UFRG (certamente
a unindo à FURG, de Rio Grande), até errar distâncias em mais de 50
quilômetros, como a que separa a Fortaleza de Santa Tereza, no
Uruguai, da sede da Estação Ecológica. Aliás, em termos rodoviários,
o autor chega ao cúmulo de errar a estrada que corta a Estação
Ecológica. Nas páginas 55, 61 e 74, onde ele a rebatiza de BR‑116, o
leitor deve ler BR‑471. Por outro lado, ao citar que este ano o
IBAMA obteve na Justiça ganho de causa para tirar o gado invasor, de
criadores limítrofes, de dentro da área da Estação, o autor esqueceu
de dizer que, quando esteve lá, o gado continuava placidamente
dentro da área.
Este, ao lado dos erros que se multiplicam, é outro pecado mortal do
autor. Interessado em agradar a gregos, troianos, egípcios, assírios,
fenícios e quem mais houver por perto, ele se derrama em citações
puxa‑saquistas e não faz uma única crítica. Cuidado, talvez, de quem
tem telhado de vidro. É que foi justamente Nogueira‑Neto quem,
quando Secretário Especial do Meio Ambiente, criou as Estações
Ecológicas, a do Taim incluída. Conta a lenda que, na época, ele e o
ornitólogo Willian Belton sobrevoaram a região em um helicóptero e
plotaram os limites da Estação nos pontos onde puderam observar
cisnes‑de‑pescoço‑negro. Não sei se a história é verdadeira, mas é a
única forma de explicar porque ecossistemas preciosíssimos, como as
dunas que existem a menos de dois quilômetros da sede e os matos que
contornam a área fora de seus limites (inclusive o da foto da página
6) ficaram fora da área
protegida. Não poucos visitantes assinalam que estes marcos naturais
seriam a demarcação ideal dos limites da Estação, mas a verdade é
que ficaram de fora.
Curiosamente, o tal mapa publicado na página 10 do livro
praticamente demarca os limites que Nogueira‑Neto deveria ter
estabelecido. Fosse verdadeiro, a grande maioria dos problemas
fundiários que hoje assolam a Estação, derivados justamente da
indefinição de seus limites, não existiria. Talvez ele queira agora
se redimir do erro. Talvez, por pouquíssimas vezes ter visitado a
região nos últimos dez anos, apenas não lembre de mais nada. Por
isso erra nomes, distâncias, grafias, cria um mapa onde além dos
limites da Estação, também os acidentes geográficos estão errados, e
até nas homenagens troca o nome de seu maior colaborador no período
de implantação: na cabeça do autor, Aldino da Rosa, o primeiro
administrador da Estação (nomeado por ele, Nogueira‑Neto),
verdadeiro herói a quem coube a batalha prática da implantação da
mesma, virou Albino.
Paga‑se, nisto tudo, o preço da desinformação. Muito melhor teria
sido que o texto tivesse sido escrito pelo próprio Aldino. Ou, caso
houvesse necessidade de dar ao mesmo um cunho erudito, pelo
historiador Péricles de Azambuja, de Santa Vitória do Palmar,
especializado na região. Ou pelo professor Tuiskon Dick, da UFRGS, a
quem a Estação esteve subordinada quando era gerida pela
Universidade. Ou por José Truda Palazzo Júnior, pioneiro do trabalho
voluntário naquela área. Ou por todos nós, que de uma ou de outra
maneira estamos envolvidos, desde que a Estação existe, na luta por
sua preservação. Em qualquer destes casos, é certo, haveria maior
conhecimento de causa, menos vaidade, menos erros, mais informações
e muito menos puxa‑saquismo no texto. Coisas que teriam sido
evitadas se a Albarus, como boa empresa gaúcha que é, tivesse
entregue a responsabilidade a um autor gaúcho e ligado ao assunto.
Questão de coerência...
* O autor
é jornalista e presidente da ABRAPA ‑ Porto
Alegre
