AgirAzul 6
Depois de um ano... – Os efeitos da ECO
92
Por Arno Kayser*
Passado pouco mais de
um ano da Conferência do Rio, já se pode ir fazendo um diagnóstico
de seus resultados, mesmo com tão pouco tempo passado desde então.
Se
hoje ainda percebemos que as idéias da Conferência de Estocolmo, em
1972, ainda não foram de todo digeridas a ponto de ter se traduzido
numa prática diária, que dirá as coisas ditas há pouco mais de um
ano. Somente hoje pode-se perceber com mais clareza a importância
daquele momento de reflexão e o tempo necessário para se traduzirem
os seus resultados em práticas coletivas.
Em
Estocolmo, a ênfase dos problemas colocados forma a nível local
cujos efeitos ainda eram só perceptíveis em determinados locais do
planeta.
Tanto
que muitos do que lá foram e que ainda não vivenciavam tais
situações, voltaram dizendo que lá só foram discutidas propostas
calcadas num alarmismo baseado em fenômenos isolados. Era muito mais
importante, para estes, o progresso para combater a miséria. Mesmo
ao preço de um rio ou animal. Nestes poucos anos o que era isolado
passou a ocorrer num número muito maior de locais. A miséria
aumentou a despeito de todos os progressos, e os efeitos apontados
em 72 se manifestaram muito mais claramente. Tanto que hoje estas
idéias sobre problemas locais não são mais contestadas.
Mesmo
os maiores poluidores concordam que algo precisa ser feito para
recuperar aqui e ali os estragos do Planeta. Foi preciso que os
problemas se multiplicassem para que os governos e amplos setores da
sociedade aceitassem e se mobilizassem e passassem a tomar atitudes
relativas ao que já em 72 era levantado. Ou seja, hoje podemos
avaliar muito mais claramente a importância daquele evento que foi
fundamental para que muita coisa mudasse e acontecesse no mundo.
Inclusive a própria ECO 92. Sem dúvida que estas questões levantadas
em 72 repercutiram primeiro na sociedade civil.
As
organizações ecológicas têm sido um dos principais fatos novos na
cena mundial ao ponto de surgirem as agências e instituições
governamentais voltadas para o meio ambiente que junto com a pressão
dos movimentos ambientalistas pressionam o poder econômico para este
atacar os efeitos de suas agressões ambientais. Junto, houve o
início de um grande trabalho educativo formal e informal que veio
gestando uma nova geração de pessoas com uma visão de ecologia.
Houve reflexos ao nível político guindando-se ao poder político com,
no mínimo, um discurso ecológico. Estes passaram a tomar algumas
atitudes, ainda que em muitos casos puramente retóricas e
demagógicas contribuindo para modificar as coisas e gerar uma nova
consciência em relação ao planeta.
Mas a
grande maioria destas mudanças foi dentro da ótica de 72. Toda
calcada sobre problemas locais. O fato novo de 92 foi a dimensão
global dos problemas ecológicos. Não é mais um rio ameaçado ou uma
espécie. É o clima do planeta, os grandes ecossistemas e toda uma
teia de seres vivos ameaçados.
A
percepção desta nova ótica certamente levará muito tempo para se
traduzir em uma consciência e uma prática incorporadas ao cotidiano
das pessoas que transcenda o conceito, já arraigado, de cuidar dos
bichos e das plantas como prática ecológica.
Há uma
grande disputa ideológica entre a visão consumista da nossa cultura
e a visão ecológica que mal e mal está se iniciando. Principalmente
nos países e setores que não tiveram acesso a um mínimo material,
idéias como consumo reduzido, uso racional e economia de energia
podem cheirar mais como um golpe contra as suas mais modestas
aspirações de vida.
Por
isso talvez ainda tenhamos que esperar até que os problemas
denunciados em 92 se agudizem mais ainda para colhermos melhores
efeitos práticos deste evento. Parece ser esta a sina da humanidade.
Só aprende quando seus erros alcançam proporções alarmantes. Mas
mesmo assim já se pode perceber que um bom número de pessoas
traduziu a mensagem da ECO 92 em prática diária.
Principalmente aqueles que antes já tinham uma visão ecológica. Para
esses, a ECO 92 foi uma confirmação de ideais e um ponta-pé decisivo
para se atirar de corpo e alma naquilo que já vinham fazendo.
A
presença de quase todos os chefes de Estado ao evento e a ampla
divulgação pela mídia contribuíram para uma ampla difusão da questão
ambiental junto à população. Mesmo que isto tenha modificado sua
prática diária, percebe-se uma maior abertura das pessoas e dos
dirigentes para com os ecologistas. De anarquistas utópicos passamos
ao status de cidadãos que devem ser ouvidos. O que é um passo
importante e um desafio grande. Exige que nos capacitemos muito
mais. Já não basta só a denúncia. Temos que ter propostas muito bem
embasadas. Precisamos conhecer tudo com mais detalhes e nos unir a
projetos concretos que sejam o ensaio das soluções que há anos
vinham sendo propostas.
A ECO
92 trouxe um maior respaldo para iniciativas no trato de resíduos,
reciclagem, educação ambiental, fiscalização e outros tipos de ação.
Os efeitos disto poderão ser melhor avaliados com o tempo.
Como
em 1972, quem melhor absorveu a mensagem foi a sociedade civil. É
dela que vem os melhores resultados. O Movimento Ecológico está mais
profissional se comparando com o voluntarismo das décadas passadas.
Isto é bom, pois os desafios são maiores. O setor empresarial vem
tentando capitalizar a onda ecológica transformando-a em mais uma
onda de consumo a exemplo do que aconteceu com o movimento hippie.
Esta me parece a face mais perigosa da questão pois a despeito de
muitos industriais sinceros, boa parte quer só faturar programa de
marketing. Fato que fica mais grave quando sabemos que a grande
mídia abandonou em grande parte as linhas editoriais ecológicas.
Segundo o Sindicato dos Jornalistas, a maioria dos jornais dispensou
os especialistas da área ambiental e hoje restringe as publicações a
uma linha branda omitindo, principalmente, o caráter de
questionamento do modelo de exploração consumista da natureza.
Faz-se a apologia de algumas belas iniciativas ou se critica efeitos
pontuais mas não se faz uma análise profunda das causas daquilo que
se manifesta aqui e ali. O objetivo tem sido mais o de explorar o
filão do marketing ecológico do que gerar transformações.
Aqui
se percebe mais uma vez a importância de criarmos canais próprios de
veiculação de informação junto com uma crítica bem fundamentada que
contrabalance a versão pasteurizada que a grande mídia tem passado
da questão. Ao nível governamental, podemos contabilizar como
positiva a eleição e posse de Clinton e Gore nos EUA. Principalmente
porque o vice tem uma boa posição em relação à questão. O caso dos
homossexuais no exército americano ilustra bem que há algo de novo
na Casa Branca.
Mas, ao mesmo tempo, assistimos uma Brundtland, depois de assumir
posições progressistas na ECO 92, regredir à defesa da caça das
baleias atendendo as pressões da indústria do seu país. Parece-me
que com eles vale a velha receita: pressão da sociedade para
estimular bons projetos e combater os oportunistas.
Mas
não resta a menor dúvida de que a Eco 92 foi um grande evento pelas
possibilidades que abriu para a questão. O que é um avanço mas
representa também um desafio. Os ecologistas têm de rever o seu agir
e fundamentar cada vez mais claramente as propostas de transformação
ao mesmo tempo que têm que refinar sua capacidade de diálogo com a
natureza e os outros setores da sociedade apontando caminhos para a
construção de uma sociedade justa e ecológica.
Aprendemos muito na ECO 92 a respeitar a diversidade cultural e de
organização dos povos e culturas em torno da questão ecológica. A
saída vai por aí. É claro que alguns setores se aproximaram da
ecologia por falta de bandeira. Mas muitas forças sociais
progressistas, que antes ignoravam a questão ecológica hoje estão
mais próximas de nós. Temos que saber nos aproximar e unir forças
sem perder nossa identidade. Usando uma imagem difundida no Fórum
Global, temos que ser como a Terra. Ao mesmo tempo que vamos
fortalecendo internamente a visão ecológica e tornando-a mais densa
como o núcleo de ferro e chumbo do planeta, temos que nos tornar
mais claros e transparentes como a atmosfera na nossa relação com o
mundo. A oportunidade histórica está aberta. É questão de
aproveitarmos pois muito das conquistas dependem de nossa forma de
agir daqui pra frente.
* Arno Kayser é engenheiro-agrônomo e presidente do Movimento
Roessler de Defesa Ambiental – contatos: Rua Tarso Dutra, 106 –
93540-210 – Novo Hamburgo – RS.
