AgirAzul 6
PROJETO BALEIA‑FRANCA EM ATIVIDADE
Governo Gaúcho
ajuda
na
defesa
das
baleias
Por
José Truda Palazzo Júnior
Num país em que o desinteresse de todos os níveis de governo para
com a conservação da Natureza é cada vez mais escandaloso, torna‑se
uma obrigação para os ambientalistas registrar os poucos apoios
recebidos para o desenvolvimento de projetos das ONGs.
O
Projeto de Pesquisa e Conservação da Baleia Franca (Eubalaena
australis) no Brasil, iniciado em 1982 e coordenado pela
Coalisão Internacional da Vida Silvestre ‑ IWC/BRASIL, tem como
finalidade monitorar e proteger através da conscientização pública a
população “brasileira” desta espécie de baleia que é uma das mais
ameaçadas em todo o planeta, restando nos oceanos pouco mais de
4.000 animais. No inverno e primavera, parte das baleias francas
sobreviventes convergem para a costa do Rio Grande do Sul e Santa
Catarina com a finalidade de parir e amamentar seus filhotes ou
acasalar; no período que vai aproximadamente de junho a setembro,
elas podem ser observadas muito próximas das praias, às vezes até a
100‑150m no limiar da arrebentação.
As
atividades do Projeto Baleia Franca consistem em acompanhar as
baleias em sua visita ao nosso litoral, através de um censo aéreo no
qual são fotografados e contados os indivíduos e anotados sua
localização e seu comportamento, e em promover atividades como
palestras, mostra de vídeos e slides e distribuição de
cartazes e folhetos nas comunidades costeiras gaúchas e catarinenses,
visando alertar as pessoas para a presença desses animais ameaçados
e a necessidade de protegê‑los contra perturbações ou agressões.
Caçadas ilegalmente em Santa Catarina até 1973, apesar de terem sido
declaradas protegidas por convenções internacionais desde 1935, as
baleias francas têm na perturbação por barcos de pesca ou de “lazer”
a pior ameaça atual à continuidade da espécie.
Dentre os resultados já obtidos pelo Projeto estão a redução a zero
as agressões graves e conflitos entre pescadores e baleias ‑ coisa
que ocorria ainda na década de 80, com filhotes sendo encontrados
mortos com marcas de tiros ‑ e a descoberta, pela identificação
fotográfica dos indivíduos, de uma ligação entre as populações do
Brasil, da Argentina e da África do Sul, comprovando o caráter de
patrimônio internacional da espécie e aumentando a responsabilidade
brasileira para com sua proteção.
Sem qualquer tipo de apoio oficial até 1992, o Projeto, que depende
de (magros) recursos alocados pela IWC para custear suas
atividades, sempre teve como maior problema a concretização do censo
aéreo anual, que dependia do aluguel de avião adequado (um monomotor
de asa alta), sendo conseguidos geralmente apenas aviões velhos e
mal conservados (o melhorzinho, utilizado de 1987 a 1991, era de
1954), e de pilotos experientes, mais difíceis ainda de achar. A
equipe do Projeto, quando chegava a conseguir fazer o vôo no período
de presença maciça das baleias (final de agosto/início de setembro),
tomava vários sustos e mais de uma vez esteve perto de se
esborrachar: as fotos das baleias, utilizadas para identificação
individual, têm que mostrar claramente as verrugas da cabeça e para
isso precisam ser obtidas a baixa altitude. Parece brincadeira, mas
não é: cinco pesquisadores já morreram em outros países fazendo este
mesmo tipo de trabalho.
Em
1992, entretanto, quando parecia que o Projeto Baleia Franca
completaria dez anos sem sequer ter interessado a alguma autoridade
pública, apareceu a luz no fim do túnel. Com a oportuna
intermediação do Deputado Federal Francisco Carrion Júnior, ele
próprio um aficcionado da observação de baleias e piloto, o Projeto
foi apresentado ao Departamento Aeroviário do Estado do Rio Grande
do Sul, que prontamente colocou aeronave adequada e pilotos
experientes à disposição da equipe de pesquisa. O censo aéreo de
1992 foi, então, um sucesso.
Mas o censo de 1993 foi ainda melhor. Utilizando um avião Cessna‑182
do DAE‑RS pilotado pelos Comandantes Fontoura e Rodrigo, a equipe de
vôo do Projeto ‑ o autor deste artigo (fotógrafo) e Maria do Carmo
Both (relatora) ‑ fez a 27 de agosto deste ano o maior registro de
baleias francas já confirmado no Sul do Brasil neste século: 28
animais, encontrados desde Atlântida (RS) a Florianópolis (SC).
Fêmeas com filhotes, grupos de acasalamento, todas foram registradas
graças à perícia e boa vontade dos dois pilotos, num vôo que durou
muitas horas e só terminou com o retorno a Porto Alegre justo a
tempo de aterrisar antes do por‑do‑sol. Com tempo calmo e mar muito
limpo, a equipe de vôo localizou e fotografou baleias em locais “fáceis”
como próximo a Itapeva (Torres, RS) e extremamente difíceis
de se trabalhar, como a praia de Matadeiro em Florianópolis — assim
chamada porque ali se matavam baleias há décadas atrás — onde a
proximidade das baleias dos enormes costões rochosos exigiu o máximo
de atenção dos pilotos.
A
equipe do Projeto faz
questão de registrar que não apenas o DAE/RS promoveu o vôo, mas
também que o pessoal do Departamento esforçou‑se visivelmente para
que a missão fosse um sucesso, enganjando‑se no esforço de defesa
das baleias francas com um entusiasmo difícil de se encontrar nas
esferas oficiais.
Os
órgãos públicos ditos “ambientais” do Brasil, que tantas vezes
torcem o nariz para as ações promovidas pelas ONGs, poderiam se
espelhar no apoio do DAE/RS ao Projeto Baleia Franca. A união de
esforços entre entidades civis e governo, como neste caso, poderia
resolver diversos problemas de conservação da Natureza em nosso
País. Bastaria querer...
