AgirAzul 5
HISTÓRIA
Como Lutzenberger foi demitido do Governo Collor?
Há cerca de um ano atrás, mais precisamente em 25 de março de
1992, dava entrada na Justiça de Brasília um pedido de explicação
dirigido a José Antônio Lutzenberger, já ex‑Secretário do Meio
Ambiente, com base no art. 25 da Lei nº 5.250.
O pedido, assinado pelos funcionários do IBAMA, diretores da ASIBAMA
‑ Associação dos Funcionários do IBAMA, dirigida por Ana Maria
Evaristo Cruz, teve o seguinte embasamento:
“1. Dispõe o art. 25 acima mencionado que: ”Se de referências,
alusões ou frases se infere calúnia, difamação ou injúria, quem se
julgar ofendido poderá notificar judicialmente o responsável, para
que, no prazo de 48 horas se explique".
2.
A “Folha de São Paulo”, C‑1, de 18/03/92, sob o título Ibama é
acusado de servir a madeireiras, do Enviado Especial a Nova York
— Marcelo Leite, publicou reportagem sobre reunião realizada com
diplomatas e ambientalistas brasileiros naquela cidade, onde se lê:
Dentro do Ibama, coisa que descobri agora, depois de eu
mandei a Tânia embora, o departamento que cuida de florestas e
madeira é uma sucursal 100% das madeireiras, entregava pilha de
guias em branco, fazia exatamente o que o madeireiro quer. (...) Não
sei até que ponto é burrice, limitação de espírito, e até que ponto
é sacanagem mesmo, é corrupção", disse Lutzenberger a duas dezenas
de pessoas.
Mais adiante, consta: “Lutzenberger não disse na reunião se mandou
apurar os indícios de corrupção, mas também lançou suspeitas sobre a
regulamentação de agrotóxicos: Saiu do Ibama uma consolidação das
leis que é um absurdo. É imbecil, por um lado, e eu acho que tem
sacanagem no meio também. Eu não assino mais aquilo, nós vamos
refazer esse trabalho todo".
3.
O jornal “O Globo”, de 18/03/92, p. 14, publicou notícia que lhe
enviara sua correspondente Heloisa Villela, de Nova York, segundo a
qual o ex‑Secretário, ora notificado teria: “Surpreendido os
participantes de uma reunião realizada na quarta‑feira da semana
passada, na Sede da Missão Brasileira junto à Organização das Nações
Unidas, ao afirmar que o departamento do Instituto Brasileiro do
Meio Ambiente (Ibama) encarregado de florestas e madeiras é
uma sucursal dos madeireiros. Segundo o secretário,
pilhas de guias em branco para extração eram entregues aos
madeireiros. A situação, de acordo com Lutzenberger, é a mesma
quanto à comercialização de agrotóxicos”.
A
seguir, na reunião onde presentes estariam o Deputado Federal Fábio
Feldman e outras autoridades, e tudo gravado em video tape e
a fita entregue a jornalistas brasileiros, teria dito o ora
notificado: “Quando o governo cria órgãos como o Ibama, para
controlar os desmandos e abusos de determinados grupos e poderes,
inevitavelmente estes grupos acabam controlando esses órgãos.
Descobri que o departamento que cuida de florestas e madeiras é uma
sucursal dos madeireiros. Faziam exatamente o que os madeireiros
queriam. Os que cuidam dos agrotóxicos fazim o que a indústria
química queria ‑ disse”.
4.
O Jornal “O Estado de São Paulo”, publicou reportagem do dia
19/03/92 dos jornalistas Elza Pires e Jecy Belmonte, sob o título
“Críticas ao Ibama deve levar à demissão de Lutzenberger” que teria
o notificado se recusado a acompanhar
a visita do Príncipe ao Ibama
e declarou que jamais voltaria ali por ser um local de corruptos.
5.
Esta mesma matéria foi publicada e transmitida por todos os meios de
comunicação: outros jornais, rádios e emissoras de televisão.
6.
Antes de considerar a gravidade das ofensas feitas ao Ibama, com
reflexos nas pessoas dos funcionários e na imagem do povo brasileiro
no exterior, fato que levou o Presidente da República a demitir o
Secretário do cargo que ocupava, segundo notícia à imprensa, os ora
requerentes, na condição de funcionários e dirigentes da entidade
ASIBAMA, representativa da classe que trabalha no órgão tido como
antro de corruptos e ladrões, sentem‑se profundamente ofendidos
com essas acusações lançadas de forma generalizada.
7.
Os crimes imputados genericamente aos servidores do órgão são
tipificados e considerados de ação pública, cuja apuração é
obrigatória na forma do que dispõe o art. 5º do Código Penal.
8.
Na medida que foi anunciado o cometimento dos crimes na reunião
feita em Nova York, a apuração deles é imprescindível, por força da
lei, além de ser questão de honra para o povo brasileiro, sem
embargos do crime de prevaricação previsto pelo art. 319, do C.
Penal, que teria cometido o próprio Secretário autor da entrevista,
que embora ciente da corrupção verificada num órgão de sua
administração, nenhuma providência de ordem policial ou judicial
tenha sido tomada até o momento.
Por todo o exposto, que seja o Sr. José Antônio Lutzenberger
notificado a explicar no prazo de 48 horas:
1º) Se participou da reunião em Nova York e se fez as afirmações
publicadas pela imprensa;
2º) Caso negativo, como explica as gravações feitas, segundo
noticiaram os jornalistas;
3º) Caso positivo, consta da notícia que O departamento que cuida
de florestas e madeiras é uma sucursal 100% das madeireiras —
como, porque e em que circunstância teria sido o Departamento
transformado em sucursal dos madeireiros?
4º
Entregava pilhas de guias em branco — que guias foram
entregues? Descrevê‑las, indicando como deveriam ser entregues, ou
se não deveriam ser entregues.
5º) Fazia exatamente o que o madeireiro quer ‑ o que quer o
madeireiro? O desejo do madeireiro conflita com o do órgão? Quem do
Ibama, nome e qualificação dos funcionários e circunstância dessa
verificação.
6º) Não sei até que ponto é burrice, limitação de espírito e até
que ponto é sacanagem — queira explicar porque, como e quem
assim procede?
7º) É corrupção — em que consiste a corrupção verificada pelo
ex‑Secretário. Como sabe ser corrupção? Quem são os corruptos, e
quais as providências tomadas após a verificação de haver corrupção
no órgão, seja para conter o crime, seja para punir os criminosos?
8º) No dia 12, disse em Nova York que o dinheiro enviado do exterior
ao Brasil talvez acabasse nas mãos da corrupção — queira
explicar essa afirmativa, e as razões dela.
9º) Saiu do Ibama uma consolidação de lei que é um absurdo. É
imbecil, por um lado, e eu acho que tem sacanagem no meio, também
(...) Como? Por que? Explicar circunstancialmente a
verificação."
Mais tarde, em 22 de abril, foi adicionado um 10º quesito:
“10º) Consta da notícia
publicada no “O Globo” de 18/3/92 ‑ p. 14", “Os que cuidam dos
agrotóxicos faziam o que a indústria química queria” ‑ que queria
a indústria química? Indicando como, porque e as pessoas que assim
procediam.”
Em 1º de setembro de 1992, José Antonio Lutzenberger respondeu ao
pedido de explicações, encaminhado a Porto Alegre através de carta
precatória via Justiça
Federal:
Pergunta 1 ‑ “Como Secretário do Meio Ambiente, representando o Brasil nas reuniões
preparatórias para a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio
Ambiente, participei também de reunião privada com pequeno grupo de
ONGs brasileiras na sede da Embaixada Brasileira junto às Nações
Unidas em Nova York. No mesmo contexto, participei de uma reunião
maior com ONGs internacionais na própria sede das Nações Unidas. Em
ambos os casos fiz questão de exigir e me foi confirmada a ausência
de representantes dos meios de comunicação. Não porque quisesse
dizer algo não apto a publicação, mas porque minha experiência de 22
anos de interação intensiva com os meios de comunicação nacionais e
internacionais sempre confirmou como é fácil e freqüente aparecerem
distorções, mutilações, generalizações ou particularizações
indevidas e, às vezes, inversões daquilo que se disse e como é
difícil posteriormente conseguir publicação de retificação.
Nestas duas reuniões eu estava falando, ou imaginava estar falando,
a companheiros de luta. Eu falava como ambientalista que, pelas
circunstâncias, também era Secretário de Meio Ambiente de um grande
país. Se fui convidado para ser secretário, foi exatamente por causa
de meu passado como lutador ambiental. Condição básica para a
aceitação tinha sido a manutenção de minha total autonomia moral o
que, aliás, enquanto permaneci no Governo foi sempre respeitado.
Portanto, não falei à imprensa. Se algo foi publicado, foi porque
participantes das respectivas reuniões o levaram a público sem minha
autorização. Pelo que vejo, no que agora me é imputado, houve
distorções, mutilações e particularizações que alteraram em aspectos
significativos minhas declarações.
Pergunta 02 ‑ Não conheço
as gravações.
Gostaria que me fossem apresentadas para poder ver e escutá‑las. Na
reunião na sede das Nações Unidas, efetivamente, vi a mim apontada
uma câmara de vídeo. Tive a impressão de tratar‑se de gravação
particular de um dos ambientalistas presentes.
Pergunta 03 ‑ No que se refere à questão madeireira, que é apenas parte, mas muito
importante, da problemática da devastação na Amazônia e nos demais
grandes biomas e ecossistemas brasileiros como o Cerrado, a Mata
Atlântica, o Pantanal, Mangue, a Restinga, Pampa, dunas, montanhas,
águas marinhas e interiores, estuários, etc., desde o começo de
minha gestão no Governo foi muito intensa minha frustração e
profunda a angústia diante da ineficácia do IBAMA em cumprir a sua
função de controlar e sustar a devastação da Natureza.
Faço parte daquele raro, muito raro, grupo de pessoas que vivem em
intenso diálogo com a Natureza. Da janela do avião, no trem ou no
carro ou no contato direto, nos cinco continentes, sempre observo
com muita atenção as paisagens com seus ecossistemas e formações
geológicas. Por isso, conheço muito bem a magnitude e a natureza dos
processos de devastação, especialmente no Brasil que, nesta questão,
é um dos campeões mundiais. Meu desespero tem sido mais intenso,
justamente, na Amazônia, à cuja defesa dediquei os últimos dez anos
de minha vida e continuarei dedicando o que me resta. Participei,
como apresentador, em filmes internacionais rodados em plena selva
para mostrar ao Mundo o que ali acontecia e continua acontecendo.
Consegui entrever e entender bastante bem a lógica do processo de
demolição e a inoperância dos órgãos que foram instituidos para
detê‑la. Vi com meus próprios olhos e agressões causadas
por fazendeiros, pelas grandes empresas agrícolas, pelos
agricultores migrantes, pelos garimpeiros, pela mineração e pelas
carvoeiras com seu trabalho semi‑escravo, a serviço das grandes e
pequenas gusarias e siderurgias. Em toda a parte, a mesma situação,
ineficácia ou ausência praticamente total dos órgãos de controle.
Vi
e compreendi também como a miséria, à qual tantos poderosos gostam
de dar a culpa principal da devastação, é, na verdade, apenas
sintoma de um processo maior. O pequeno agricultor migrante, o
garimpeiro e muitos outros não avançam sobre as últimas selvas
porque gostam. Lá estão porque foram marginalizados em suas terras
de origem.
Tanto antes como depois de chamado a ser secretário, tive muita
experiência pessoal na constatação da insânia da devastação. Ao
procurar saber porque nada ou quase nada acontecia para frear os
estragos, sempre me era relatada a ausência, inoperância e mesmo
conivência dos órgãos responsáveis. É claro que os coniventes não
assinam recibo. Portanto, não adianta citá‑los, mesmo sabendo quem
são.
Na
Secretaria, insisti em cobrar dos sucessivos presidentes e da
presidente do IBAMA cada vez que constatava pessoalmente ou me eram
relatados casos concretos de devastação. As respostas eram sempre ou
evasivas, ou me diziam que já estavam sendo tomadas as necessárias
providências. Vejamos um caso concreto: Já nas primeiras semanas,
estava ainda como presidente do IBAMA o sr. Zulauf, insisti que
fossem tomadas providências no caso da devastação das últimas
florestas ciliares na bacia do Rio Francisquinho, ao sul de Pantano
Grande, no Rio Grande do Sul. Repetidamente, pelo próprio sr.
Zulauf, depois pelos três sucessores, me foi garantido que tinham
sido tomadas as necessárias providências. Agora, agosto de 1992,
in loco, constato pessoalmente como continua esta devastação.
Vejo com meus próprios olhos como entram nos fornos de cal as toras
de madeira de floresta virgem, não obstante minhas repetidas
denúncias à Superintendência Estadual do IBAMA. Quem quiser ver que
venha a nosso Estado, mostrarei os fornos, poderá falar com os
operários e os donos, poderá ver os bosques devastados.
Quanto às inúmeras serrarias ilegais, ou supostamente legais, na
Amazônia, eu não cessava de reclamar da sra. Tânia e do sr. Eduardo
que fossem tomadas medidas. Sempre recebi respostas evasivas, mas
continuava vendo, pessoalmente, como por exemplo, em Sinop, MT,
entre outros lugares, centenas de serrarias estavam acabando
completamente com as árvores de porte comercialmente interessantes.
As serrarias tinham guias. Mas como, se a concessão de guia
pressupõe exploração sustentável. Exploração sustentável de madeira
da floresta tropical úmida, até agora não consegui ver!
Constatam‑se, inclusive, absurdos como este: enquanto os carvoeiros
que fornecem o carvão vegetal à siderurgias e que já pelaram quase
todo o Estado de Minas, que avançam sobre o novo Estado de Tocantins
e já vão até o Maranhão, sempre sem freio por parte do IBAMA,
enquanto estes carvoeiros destroem sempre mais floresta intacta ou
semi‑intacta, podem ver‑se nos pátios das serrarias imensas
montanhas de retalhos de madeira. Estas montanhas acabam sendo
incendiadas. Nem a cinza é levada às lavouras, onde seria excelente
adubo mineral. Perguntava a carvoeiros e a serradores por que estes
retalhos não eram pelo menos usados nos fornos de carvão. A resposta
que recebia era:: “o IBAMA não dá guia para transportá‑los...”, além
de não impedir devastação, contribui‑se a mais devastação. No
entanto, uma das funções do IBAMA seria a educativa, no sentido de
promover enfoques naturalistas e holísticos no trato com a Natureza.
Se
ainda alguém necessita provas da inoperância e omissão oficial,
basta mencionar o que acontece na reserva dos Caiapós e outras
terras indígenas. Quando Paulinho Paiakan, Cacique Caiapó, foi
acusado de estupro, ele ameaçou fazer reféns mais de mil brancos que
trabalhavam em sua reserva como madeireiros e como garimpeiros. Mas
como? Com que tipo de guias era e continua sendo explorada esta
madeira, em plena reserva indígena???
Diante deste quadro, frustrado e angustiado, não surtindo efeito
minhas reclamações junto à Presidência do IBAMA, o que eu realmente
disse — (das palavras textuais não consigo lembrar‑me, consultem as
gravações) — era fundamentalmente o seguinte: o departamento que
cuida de florestas e controla a exploração madeireira funciona
como se fosse uma sucursal cem por cento das madeireiras. Claro
que o IBAMA não é no sentido legal, uma sucursal das madeireiras,
mas os madeireiros estão felizes, conseguem fazer o que querem.
Se
já é verdade que diminuiu consideravelmente a devastação florestal
em grande escala pelas fazendas de gado, por terem sido eliminados
os subsídios e, também, pela crise econômica, o que nos preocupa
agora é a exploração madeireira desenfreada. Quem já observou de
perto o incrível estrago que fazem os madeireiros com suas pesadas
máquinas, ao abrirem caminho dentro da selva e ao retirar as toras,
sabe o que isto significa. As florestas tropicais úmidas, por
exemplo os Redwoods da costa do Pacífico, no Canadá e nos Estados
Unidos, na Taiga siberiana ou na Escandinávia e Finlândia, ou como
eram na hoje exterminada Floresta de Araucárias no sul do País.
Aliás, o extermínio da Floresta de Araucárias, cujas últimas
relíquias estão desaparecendo agora, foi feito às barbas do
Instituto do Pinho e de seu sucessor, o IBDF, hoje integrado ao
IBAMA. A extrema heterogeneidade da floresta tropical úmida faz com
que as toras procuradas pelos madeireiros se encontrem a grandes
distâncias uma das outras, mas seu elevado valor comercial torna
econômico para o explorador, com suas pesadas máquinas, abrir
estradas de centenas de metros e mesmo quilômetros de comprimento. O
estrago ao longo destes caminhos é indescritível. Quando o
madeireiro se retira para iniciar sua sanha em outro lugar, a
abertura da floresta facilita a entrada de “posseiros” irregulares,
muitas vezes atiçados por fazendeiros que, após deflorestação total,
mandam embora o pequeno agricultor que, aliás, diante da pobreza dos
solos já não mais consegue colheitas satisfatórias. Passam, então, a
semear pasto, um pasto que também não é sustentável. O ciclo da
devastação repete‑se em outro lugar.
Este processo, se não for freado, especialmente levando em conta que
ele é exponencial, acabará por levar à destruição total da floresta
em duas ou três décadas, com todas as conseqüências calamitosas,
principalmente de natureza climática, que advirão para nossos filhos
e netos e para o Planeta Terra como um todo.
Perguntas 04 e 05 ‑ A questão das guias entregues em branco me foi reiteradamente
denunciada por particulares, por colaboradores ambientalistas e me
foi confirmada pelo sr. Eduardo Martins quando já era Presidente do
IBAMA. Me confirmou que esta era a praxe. Por isso, pedi que fossem
canceladas todas as guias, para que pudesse ser iniciada nova
política. Era função da presidência do IBAMA fazer esse
cancelamento. Quando me dei conta que inventava sempre novos motivos
para não fazê‑lo, decidi, pessoalmente, assinar a Portaria
cancelando e dando 45 dias de prazo aos madeireiros para se
legalizarem, uma legalização que só seria possível com projetos
realmente sérios de recuperação sustentável
(Nota do Editor: já publicada no AgirAzul‑ Boletim
Ambientalista).
Quando esta portaria assinei, correu‑me um calafrio pelas costas.
Sabendo da abelheira em que meti o dedo, sabendo dos enormes
interesses, interesses que montam a bilhões de dólares, sabia que
corria perigo, inclusive de assassinato. Assim mesmo, não pude
deixar de fazê‑lo. Esperava que logo estourasse sobre mim uma
avalanche de protestos por parte dos madeireiros. Fato curioso, tal
não sucedeu! Suponho que os madeireiros foram direto a Collor. Mas,
foi nesse momento que o IBAMA, ou melhor, certos funcionários do
IBAMA (não necessito e não quero citá‑los. O IBAMA sabe quem são),
passaram a me atacar. Pouco depois, a Associação dos Funcionários do
IBAMA passou a pedir em público a minha cabeça. Foram feitas
reuniões em Brasília com a presença de Superintendentes dos Estados.
Quem pagou as passagens? Com que justificativa? Interessante! A
minha medida tinha como fim principal fortalecer a mão do IBAMA!
Faço constar um relato específico sobre o caso das Guias Florestais
Modelo A, objetos das minhas denúncias, nos termos em que me
relataram funcionários do IBAMA, em estados do Sul do país.
As
guias florestais foram criadas por volta de 1966 pelo então IBDF.
Desde sua criação foram sempre entregues em branco às indústrias
madeireiras que as preenchiam de acordo com suas necessidades ou,
não encontrando fiscalização, não as preenchiam, guardando‑as para
uso posterior. Essas guias deveriam ser preenchidas e deveriam
acompanhar a carga de madeira. Ocorre que pela quase total falta de
controle do órgão fiscalizador (IBDF e, posteriormente, IBAMA),
passaram a ser preenchidas apenas quando da passagem da carga por
alguma eventual barreira. A critério do órgão, em função da
quantidade da madeira a ser transportada, deveria‑se averiguar a
quantidade de madeira transportada por cada indústria e, sendo isto
uma limitação à cobiça dos madeireiros, apareceram os “roubos” de
guias Modelo A. Será que houve participação de pessoas de dentro da
repartição? Em função destes “roubos” a falta de controle tornou‑se
ainda maior, resultando em inquéritos em pelo menos dezesseis
estados brasileiros, nas superintendências e POCOFs, como devem
saber muito bem os autores da carta precatória. Um exemplo apenas:
no nosso estado, RS, em julho/1967, foram “desviadas” de uma só vez
oito mil guias. Tratava‑se de uma caixa fechada que sumiu inteira de
dentro da sede do IBAMA (IBDF) em Porto Alegre.
Não restava outra solução senão acabar com tais guias, visto
servirem tão somente aos interesses da maioria dos madeireiros, ou
seja, fugir à legislação ambiental em vigor. Por inoperância da
Presidência do IBAMA, coube a mim a iniciativa e foi concretizada
através da Portaria de 27.02.92, extinguindo tais “documentos”.
Passou‑se então à aposição de um carimbo no verso da nota fiscal,
dificultando um pouco a burla à fiscalização ambiental, pois uma
cópia da nota fiscal, devidamente carimbada, é sempre remetida ao
IBAMA pelo órgão do ICM.
Gostaria que o IBAMA me informasse, que tipo de fiscalização prática
e eficiente faz em base a essas notas carimbadas. Faço um desafio ao
IBAMA: mostrem‑me, para as licenças concedidas até agora, os
projetos de exploração sustentável em que deveriam basear‑se e
provem a sua sustentabilidade ecológica. Mostrem‑me também como o
atual esquema do carimbo promove exploração sustentável e protege a
floresta.
Pergunta 06 ‑ Quanto à frase “não sei até que ponto é burrice, limitação de espírito
e até que ponto é sacanagem”, não me lembro se as palavras foram
exatamente estas, mas o sentido está certo. Entretanto, isto não é
acusação, é pergunta, é expressão de perplexidade. Diante de tudo o
que acima relatei, diante de um órgão oficial que tem como obrigação
básica defender a floresta, só posso ficar muito perplexo, para não
dizer chocado, revoltado! Em minha vida particular sou empresário.
Estou acostumado a ver executadas as ordens que dou a meus
diretores. As ordem que eu dava aos presidentes do IBAMA, no
entanto, raras vezes eram seguidas.
Não tive e não tenho a mínima intenção de insultar quem quer que
seja. Nem conheço ou não consigo lembrar‑me das pessoas que movem
esta carta precatória. O que quero é o que deve querer todo
brasileiro responsável, preocupado com o que ocorre neste país.
Quero um IBAMA que consiga pelo menos frear substancialmente a
depredação deste maravilhoso pedaço do Planeta vivo que é o nosso
país.
Pergunta 07 ‑ Eu estava me preparando para iniciar um processo para investigar em
profundidade o que acontecia no setor madeireiro, estava
estruturando medidas efetivas para desencadear uma comissão de
inquérito, da qual participassem a Ordem dos Advogados do Brasil, a
Procuradoria Geral da República e representantes das ONGs
brasileiras. A minha intenção era levar até o fim esta e outras
investigações. Estávamos no dia 20 de março de 1992, aparece em
minha casa o Embaixador Marcos Coimbra, Secretário Geral da
República, com um de seus auxiliares. Lá estiveram durante algumas
horas. Insistiram comigo para que não incluísse a OAB, a
Procuradoria e representantes de ONGs. Prepararam para que assinasse
um texto que previa como passo inicial uma simples sindicância
interna, da qual sairia informação para iniciar ou não, a Comissão
de Inquérito. Uma vez que seria apenas um passo inicial, aceitei e
assinei, mantendo, entretanto, a intenção de levar a questão a fundo
através de um inquérito de comissão imparcial. Na manhã seguinte,
Coimbra me telefona para me comunicar que o Presidente me ordenava
que eu pedisse demissão. Não pedi, pois queria, pelo menos, levar
adiante esta questão. Fui então oficialmente despedido.
Para mim esta questão não está encerrada. Sugiro que o IBAMA leve
adiante a investigação até que possamos punir os culpados. Por isso,
na época, não quis citar nomes. Estes devem aparecer em
investigações abertas, como são as CPIs da corrupção no Governo.
Pergunta 08 ‑ Durante as discussões da Comissão Preparatória para a ECO‑92, em Nova
York, o meu amigo pessoal, Secretário da UNCED, sr. Maurice Strong,
argumentava que, a partir de 1992 os países do Primeiro Mundo teriam
que arcar com aproximadamente sessenta bilhões de dólares anuais
para ajudar os países do Terceiro Mundo a resolver seus problemas
ambientais. Discordei em parte. Eu disse que, em primeiro lugar, não
acreditava estivessem
disponíveis tais somas. Sabe‑se que a Alemanha, que até recentemente
era país exportador de capital, devido aos problemas que tem com a
reunificação, passou a importar capital; o Japão está em crise
financeira e os americanos deixaram claro que não pretendem
dispender tamanhas somas. Eles já têm tremendos problemas de dívida
interna e externa.
Além disto, argumentei que a solução dos
problemas ambientais no mundo não depende necessariamente do
dispêndio de grandes somas, depende, isto sim, de novas atitudes, de
nova vontade política,
É
claro que dinheiro pode ajudar na demarcação de reservas indígenas,
de reservas extrativistas e na proteção destas reservas. É claro
também que pode e deve ajudar na preservação e ampliação do esquema
de parques naturais, reservas biológicas, etc.., que deve ajudar em
esquemas de extensão agrícola junto aos pequenos e grandes
agricultores na Amazônia para que possamos ensinar‑lhes métodos de
agricultura regenerativa, para que possam recuperar a fertilidade de
seus solos e não se vejam mais necessitados a derrubar sempre mais
floresta, como é o caso. Quero mencionar aqui que a Fundação Gaia,
da qual sou Presidente fundador, com a ajuda de entidades européias,
entre outras coisas, faz exatamente este tipo de trabalho com
pequenos agricultores no Estado do Pará. Prepara‑se para ampliar
estes trabalhos. O sucesso tem sido grande. Trabalhos desta índole,
entretanto, jamais exigiriam somas tão elevadas quanto às
mencionadas.
Enquanto que nas notícias veiculadas com respeito a alguns dos itens
acima houve generalizações indevidas, no assunto de possíveis ajudas
financeiras internacionais houve particularização indevida.
O
que eu disse foi algo que todo o mundo sabe, fato que mencionei
várias vezes em reuniões ministeriais, inclusive, e que discuti com
altos funcionários do Banco Mundial em seus gabinetes em Washington
e que eles não negaram. Foi dito, e não só por mim, em termos
genéricos, que é sabido que fração significativa dos grandes
empréstimos acaba nos canais obscuros da corrupção. Enquanto que
empréstimos de bancos particulares a empresas ou cidadãos
particulares exigem prestação de contas para cada prego, tijolos ou
sacos de cimento comprado, os empréstimos dos grandes bancos
multilaterais a governos têm pouco controle. Basta lembrar os
escândalos que houve no caso da Barragem Tucuruí.
Quando mencionei estes aspectos, não estava me referindo ao Governo
do Brasil. Estava falando de governos, no plural!
Estava falando no mesmo nível em que, uma vez, anos atrás,
falava Simonsen, quando, com humor, ao referir‑se a grandes obras de
impacto ambiental negativo, dizia, “melhor seria que se pagassem
logo as comissãos aos corruptos, sem fazer as obras. Seria mais
barato”. Diante do que agora aflora com a CPI da gangue do PC só
ficam reforçados pensamentos deste tipo.
Pergunta 09 ‑ Em reunião de gabinete com os Ministros e o Presidente, eu havia
levantado, ainda em 1991, a necessidade de uma revisão a fundo da
legislação ambiental. Foi decidido que se fizesse logo um
levantamento para que depois fossem preparados os decretos e
portarias, assim como os necessários projetos‑de‑lei para uma
consolidação. Dei ordem à sra. Tânia Munhoz para que fizesse um
levantamento completo de toda a legislação, dos decretos e das
portarias de cunho ambiental, nos níveis municipal, estadual e
federal. De posse deste levantamento prepararíamos então,
sigilosamente, para não atrair a atenção de certos interesses, os
decretos, portarias e projetos de lei. Passei a cobrar
insistentemente este levantamento. Foi necessário pedir ao
Presidente várias prorrogações de prazo porque o levantamento não
aparecia.
Fui atropelado pelo IBAMA. Durante uma viagem ao exterior que tive
de fazer no contexto da preparação da ECO‑92, foi dado ao público um
anteprojeto de consolidação, já pronto. Ele foi violenta e
justamente criticado por ONGs ambientalistas.
No
anexo (documento de José Truda Palazzo Júnior ao Dr. Paulo Gustavo
Pereira) (NOTA DO EDITOR: documento este publicado na íntegra
no AgirAzul ‑ Boletim Ambientalista número zero que circulou
em março de 1992), que endosso cem por cento, sem necessariamente
concordar sempre com a linguagem, explica porque não posso concordar
com esta consolidação e porque dá origem a suspeitas de defesa de
certos interesses. Por que não tentaram processar o sr. Truda na
época?
Outra afirmação minha foi indevidamente particularizada. Quando me
referi a influência exercida por poderes tecnocráticos sobre
governos, estava me referendo a uma constatação que se faz em todo o
mundo e que pessoalmente fiz no Brasil e em vários outros países.
Vou citar uma autoridade insuspeita. O Prof. Philip James, Diretor
do Rowett Research Institute e membro da Organização Mundial
de Saúde disse que o “Codex Alimentarius” é dominado pela indústria
dos alimentos, um exemplo entre inúmeros. Durante os vinte anos em
que participei ativamente na luta contra os agrotóxicos na
agricultura (plural!), tive sempre oportunidade de verificar como a
indústria química domina as decisões dos responsáveis nos
ministérios de agricultura (plural), dominava entidades de pesquisa,
de extensão agrícola e dominava escolas de agronomia. Esta lista é
muito grande e se estende a muitos campos e é até pior nos países do
Primeiro Mundo do que no nosso.
A
idéia que expressei, portanto, era de que, quando governos (plural!)
instituem órgãos para controlar os desmandos e abusos de
determinados poderes tecnocráticos, invariavelmente, estes procuram,
e muitas vezes conseguem, controlar estes órgãos. Não se trata
necessariamente de controle direto ou de corrupção, em geral o que
acontece, é que estes poderes conseguem impor a sua filosofia, isto
é, os seus paradigmas.
Na
terceira página da Carta Precatória é citada frase que me imputam
Elza Pires e Jecy Belmonte, do Estado de São Paulo, aos quais não
dei entrevista sobre o assunto. Segundo eles, eu teria dito, por
ocasião da visita do Príncipe Philip a Brasília, que não
acompanharia o Príncipe ao IBAMA, que “jamais voltaria ali por ser
local de corruptos”.
O
que realmente houve, foi que sugeri ao secretário da Embaixada e ao
Embaixador britânico, que achava melhor aproveitar o curto tempo
disponível para uma visita ao Parque Nacional de Brasília. Isto
porque o Príncipe tinha expressado sua vontade de conhecer o Cerrado
brasileiro. Eu achava que uma visita a escritórios e laboratórios
seria de menor interesse. Pessoalmente, quando em viagens oficiais
me obrigavam a fazer este tipo de visita, sempre resultava
aborrecido para mim. Conheço bem o Príncipe e sei que ele é
naturalista.
Neste assunto, certamente houve intriga. Nenhuma entrevista dei a
respeito.
Espero que fique claro minha real posição. Estou seguro que a grande
maioria dos funcionários do IBAMA são gente séria, honesta e bem
intencionada e que colaborarão a transformar o órgão em instrumento
efetivo na preservação da Natureza neste grande país."
O processo da
Notificação,
que tramita perante a 6ª Vara da Justiça Federal do Distrito
Federal, foi entregue em carga ao advogado da ASIBAMA em 9 de março
de 1993, sem que até o final de maio houvesse outra manifestação.
Ana Maria Evaristo Cruz não é mais a presidente da ASIBAMA.
