AgirAzul 5
Reunião anual da Comissão Internacional da Baleia
Apesar das fortes forças contrárias, as Baleias continuam protegidas
Comunidade Internacional derrota Japão e Noruega
Por
José Truda Palazzo Júnior
-IWC
‑ Brasil
Quando o governo do Japão convidou a Comissão Internacional da
Baleia (CIB) para realizar sua 45ª Reunião Anual naquele país, em
Kyoto, de 5 a 15 de maio de 1993, seus políticos corruptos e
apoiadores das empresas baleeiras achavam que iriam conseguir
reabrir a matança comercial de baleias, proibidas desde 1986 em todo
o planeta por decisão de 3/4 dos países membros da Comissão. Ledo
engano: a maioria dos países da CIB, na qual felizmente o Brasil
agora se inclui, acabou com as pretensões dos japoneses e do governo
sórdido e mentiroso da perua Gro Harlem Brundtlandt,
primeira‑ministra da Noruega e pseudo‑ambientalista que defende a
volta do massacre. Como a cobertura desta reunião importantíssima
foi negligenciada pela imprensa brasileira, vale a pena darmos aqui
uma visão dos seus pontos mais interessantes.
1.
A Farsa da “Civilidade” Japonesa
Os
defensores da sociedade corrupta, alienante e inumana do Japão
contemporâneo costumam varrer para baixo do tapete as práticas
terroristas de pressão econômica internacional e consumismo
desenfreado de recursos naturais do planeta, preferindo tecer loas a
pretensas virtudes dos japoneses tais como a “paciência” e a “educação”.
Pois, pasmem: ao primeiro sinal de que se contrariam os interesses
dos empresários baleeiros e do governo, essas pretensas qualidades
desaparecem. Na Reunião da CIB os baleeiros levaram uma claque
organizada e gritona de uns 200 sujeitos, convenientemente
protegidos pela polícia. Essa turba mal‑humorada, fazia um corredor
no acesso ao prédio da reunião e esfregava seus cartazes contra a
proteção das baleias na cara de quem quer que parecesse ocidental.
Pior: quatro japoneses não‑baleeiros, que tentaram manifestar‑se
quieta e pacificamente contra a caça de baleias, foram
agredidos fisicamente e expulsos do local pelo bando de pelegos dos
baleeiros, sem que a polícia — também pelega — garantisse os
direitos democráticos daqueles cidadãos. Que bela e harmônica
sociedade! Que democracia exemplar!
Para completar a boa impressão que causou essa “civilização do
futuro”, a delegação oficial do governo japonês na CIB passou a
reunião dizendo grosserias e desaforos para as delegações dos países
não‑baleeiros, num baixo nível que chocou os diplomatas presentes;
além disso, na recepção de boas‑vindas aos participantes da reunião
que o governo japonês ofereceu, na qual bifes e miolos de baleia
foram oferecidos aos participantes enojados, o chefe da delegação do
Japão, um pusilânime chamado Kazuo Shima, partiu para cima de um dos
ambientalistas americanos mais respeitados, Craig van Note, do grupo
Monitor, xingando e dizendo que os ambientalistas
credenciados na CIB não eram bem‑vindos no país dele... (de fato,
muitos de nós detestaram ficar no Japão!).
Some‑se a isto: a grosseria do consulado japonês em Porto Alegre (que
por pouco não nega o meu visto de entrada no país), outra visita de
trabalho que fui obrigado a fazer ao Japão em 1992, e posso afirmar
com experiência sólida de que essa pretensa “súper‑raça” que quer
dominar (e destruir) o planeta com seu dinheiro sujo não tem nada
dos “bonzinhos mitológicos” que turistas abonados e míopes propalam
falsamente. O Japão é um nojo.
2.
“Desenvolvimento Sustentável” para Matar Baleias
Apenas dois paises têm interesse direto na retomada do massacre de
baleias em escala comercial: o Japão e a Noruega. Neste último
paiseco, reduto provinciano e conservador entre os escandinavos, a
primeira‑ministra e pseudo‑ambientalista mandou seus emissários (cloacais)
recitar o surrado e falacioso discurso do “uso sustentável dos
recursos” para justificar a volta da matança. Baseados em modelos
teóricos de computador elaborados por seus próprios cientistas “oficiais”,
japoneses e noruegueses se dependuraram durante toda a reunião em
citações prolongadas da Agenda 21, o documento inócuo e
generalista que os governos aprovaram na ECO‑92. A “sua” leitura da
Agenda 21, entretanto, foi contestada (leia
artigo na página
3 desta edição do AgirAzul) e derrotada pela maioria
dos países‑membros da CIB, que obrigaram a delegação da Noruega a
retirar uma proposta de resolução que endossava a caça de baleias,
em princípio, como “uso sustentável”. As demais derrotas impostas
aos baleeiros, como veremos a seguir, também seguiram a linha
anti‑Brundtlandt.
3.
Cacete nos Baleeiros, em Todas as Instâncias
Como já dissemos, foi por água abaixo a tentativa grosseira do Japão
de pressionar a CIB em Kyoto; os baleeiros apanharam feio em todos
os resultados da Reunião.
Foram estas as decisões mais importantes adotadas, além da
continuidade da moratória, todas por maioria absoluta de votos:
* Resultados do “Comitê Científico"
-
a
Comissão recusou‑se a aprovar formalmente as estimativas
populacionais de baleias minke (Balaeenoptera
acutorostrata) resultantes do “videogame” totalmente empírico
produzido pelos pseudocientistas a serviço dos baleeiros. Essas
estimativas baseiam‑se unicamente em extrapolações de avistagens
isoladas de barcos...japoneses, é claro, do tipo “vimos 50 baleias,
logo se aplicarmos o programa de computador Kukamonga II, existem
700.000 baleias!”. Não é brincadeira, é bem isso o que acontece. O
plenário da CIB, por ampla maioria, disse que este tipo de cálculo é
inaceitável.
** Crueldade da Matança<P255D>: diversos países da CIB advertiram os
baleeiros de que não basta calcular as populações de baleias e “provar”
que a matança é “sustentável”: outros aspectos, como a eliminação da
crueldade bestial que caracteriza o arpoamento de baleias, levando
os animais a uma morte lenta e horrivelmente dolorosa. Tanto
japoneses como noruegueses tentam desesperadamente esconder da
Comissão os dados técnicos pertinentes, tais como o tempo decorrido
entre arpoamento e morte, mas não adianta: a CIB não vai aprovar a
volta da caça se a crueldade continuar.
*** “Caça Costeira de Pequena Escala”<P255D>: foram rejeitadas as
propostas que visavam eximir os baleeiros de “pequena escala” das
costas do Japão e da Noruega da proibição de caça. Os japoneses
ainda apresentaram um pedido ridículo de uma “quota de emergência”
de 50 baleias minke para “aliviar o sofrimento” dos pobres baleeiros...
claro que a proposta foi rejeitada, com algumas “expressões de
simpatia” diplomáticas pela “difícil situação” dos japoneses... mas
no intervalo do café todo mundo ridicularizava as tentativas do
Japão e da Noruega, países hiper‑desenvolvidos, de se fazerem passar
por pobres esfomeados.
**** Proposta de Santuário na Antártida<P255D>: a França propôs, em
1992, a criação pela CIB de um Santuário ou área de exclusão total
de caça, abrangendo todas as águas do Hemisfério Sul desde a
Antártida até o paralelo 40. Apesar dos esforços dos baleeiros para
enterrar a idéia, a proposta foi aprovada em princípio
através de uma Resolução e a decisão final deferida em 1994 (a
criação definitiva do Santuário exige uma maioria de 3/4, e países
pentelhos como o Chile querem discutir aspectos “legais” — leia‑se
geopolítica — da proposta antes de votar a favor).
Se aprovada em definitivo, no ano que vem, esta proposta selará a
morte da caça de baleias em alto‑mar, já que todas as intenções
assassinas dos grandes baleeiros japoneses voltam‑se para as baleias
daquelas regiões austrais.
***** Uso Não‑Letal de Baleias<P255D>: numa decisão realmente
histórica e transcendente, a CIB aprovou uma Resolução reconhecendo
o valor de usos não‑letais das baleias e estabeleceu um Grupo de
Trabalho para avaliar, em todo o planeta, os benefícios econômicos e
outros aspectos do whalewatching ou turismo de observação de
baleias. Na discussão deste tema, várias delegações salientaram que
este tipo de uso dos recursos naturais é muito mais “sustentável” do
que a matança que a bruxa Brundtlandt quer promover.
4.
Brasil, Defensor das Baleias
Não é piada: a delegação brasileira foi uma das mais elogiadas pelos
ambientalistas graças a suas posições firmemente a favor da proteção
às baleias. A façanha não foi mérito do nosso pseudo‑ministro
do Meio Ambiente, mas sim do Ministério das Relações Exteriores, que
enviou a delegação do Brasil com instruções bastante claras no
sentido de atender aos apelos de dezenas de entidades brasileiras e
defender as baleias contra a matança. A chefe da delegação do Brasil
na CIB é a diplomata Mara Weston Góes, bastante competente e
profissional. Os nossos heróis domésticos são os diplomatas
da Divisão do Mar, Antártida e Espaço (DMAE) do Ministério, sempre
dispostos ao diálogo com as ONGs. Ponto para eles!
5.
O Bloco Nipo‑Caribenho‑Escandinavo‑Afro‑<R>Salomônico
Uma situação ao mesmo tempo ridícula e preocupante vem se
desenvolvendo na CIB: contando somente com a Noruega como “colega
baleeiro” no plenário da Comissão, o Japão parte para a compra
aberta e escrachada de votos de republiquetas‑de‑banana cujos
governantes se vendem por quaisquer trinta dinheiros em “ajuda
econômica”; assim, o bloco pró‑matança conta hoje com as delegações
de ilhotas do Caribe: Dominica, Saint‑Vincent, St. Lucia, St. Kitts
& Nevis e Granada, além das ilhas Salomão (do Pacífico) e do Senegal
(aliás, contumaz traficante de aves), que se prestam a votar
exatamente igual ao Japão (e contra as baleias) em todas as
oportunidades. É a face mais podre e asquerosa do poder de corrupção
do dinheiro japonês, e a situação toma contornos de imperialismo
racista se notarmos que todas estas pequenas nações cujos governos
se venderam são pobres e de maioria negra, povos tradicionalmente
desprezados e oprimidos pela voracidade do capital nipônico.
Novamente, a perua Brundtlandt, que se finge de inimiga das
desigualdades econômicas, mostra sua verdadeira fuça imunda ao
compactuar com a indecência dos japoneses, já que a Noruega se
aproveita desse insólito “bloco baleeiro” movido a verbas de olho
puxado.
6.
Os Cucarachas, Vexame de Sempre
Apenas para variar, os hispano‑hablantes latino‑americanos
foram responsáveis pelos piores vexames da Reunião. O Presidente da
Comissão, o mexicano Luís Fleischer, mereceu apedido de página
inteira nos jornais do México na véspera da Reunião, assinado por
dezenas de entidades ambientalistas, pedindo sua demissão.
Fleischer, possivelmente o pior presidente que a CIB já teve, é
acusado de tentar favorecer os baleeiros nos procedimentos das
reuniões que dirige.
Pior, no entanto, foi a postura do Chile, que de moderadamente
ambientalista passou a defender vigorosamente os baleeiros e seu “direito”
ao “uso sustentável” das baleias. A fofoca é de que correu dinheiro
grosso para alterar a posição chilena. O Chile opôs‑se violentamente
à discussão dos problemas dos pequenos cetáceos (botos e golfinhos).
A
Venezuela, cujo ex‑governo não mandou delegação, enviou uma
declaração por fax em inglês macarrônico, no mesmo tom dos
disparates chilenos. O Peru deverá aparecer em 1994 com as mesmas
posições. Ambos são, junto com o Chile, países assassinos de
pequenos cetáceos. São, aliás, dois os denominadores comuns dessas
posições cucarachas: a pressão maciça do dinheiro japonês e o medo
de que a CIB venha a regular a conservação de botos e golfinhos que
são massacrados propositalmente nesses países aos milhares.
Será preciso uma pressão muito forte das ONGs latino‑americanas para
evitar a consolidação de um novo bloco latino pró‑baleeiros como já
houve até a década de 70.
Exceção notável, além do Brasil, foi a Argentina que manteve‑se
firme a favor das baleias em todas as discussões e votações,
negando‑se a aderir ao bloco nipo‑cucaracha.
7.
Ameaças Ambientais
Por proposição dos EUA, a CIB aprovou a constituição de um
workshop para
analisar os efeitos da degradação ambiental dos oceanos sobre a
recuperação das populações de baleias. Temas como a poluição por
petróleo e a destruição da camada de ozônio que leva a alterações
nas teias alimentares marinhas deverão ser discutidos. Essas ameaças
são mais um conjunto forte de razões para que a matança comercial de
baleias não seja reaberta, mas a “ambientalista” Brundtlandt tem
chiliques só de ouvir falar nisso.
Futuro Incerto para as Baleias?
As
muitas vitórias que conseguimos nesta Reunião da CIB não são,
em absoluto, motivo para ficarmos aliviados. As perspectivas para o
futuro das baleias continuam bastante sombrias.
As
ameaças vis da velha marginal Brundtlandt, que promete reabrir a
matança comercial de baleias apesar das decisões da CIB (que notável
respeito à comunidade internacional! que ambientalista democrática e
imparcial!), não deverão se concretizar graças à ameaça formal de
retaliações comerciais norte‑americanas e sanções da Comunidade
Econômica Européia contra a Noruega. Entretanto, e apesar das
advertências em contrário da CIB renovadas este ano, a “caça
científica” de cerca de 300 baleias minke na Antártida pelo Japão e
algumas dezenas no Atlântico Norte pela Noruega deverá continuar.
Pior do que tudo, o suborno japonês, como um câncer, parece estar se
espalhando. Como já fizeram com os paisecos supra‑citados, os
japoneses podem muito bem comprar mais governos prostituídos de
republiquetas e acabar obtendo no futuro a maioria de 3/4 do
plenário da CIB necessária para derrubar a proibição da caça
comercial ora vigente.
Para evitar que isso ocorra, é fundamental que países como o
Brasill continuem exercendo uma liderança ambientalista na CIB,
constrangendo os países prostitutos e contrabalançando seus votos
vendidos. Para que isso continue acontecendo, OS AMBIENTALISTAS
BRASILEIROS NÃO PODEM SE ESQUECER DAS BALEIAS. Elas não estão
salvas ainda e precisam continuar na nossa lista de prioridades.
Elas merecem bem mais o nosso tempo do que os “fóruns” inúteis e os
Coutinhos Jorges da vida. Pensem nisso, e façam o Ministério das
Relações Exteriores saber da sua opinião a favor da proteção dos
últimos grandes cetáceos. Escrevam ao Ministro José Aparecido,
Palácio do Itamaraty, Esplanada dos Ministérios, CEP 70170‑900
Brasília‑DF, apoiando a posição brasileira na CIB e pedindo sua
continuidade.
Este pequeno esforço, que vale muito, é o mínimo que as baleias
esperam de todos nós.
