AgirAzul 13
Cancro Cítrico não é problema
pela Equipe Técnica da Fundação Gaia
Foi cometido, há vários anos atrás, um incrível vandalismo oficial
que afetou centenas de citricultores brasileiros. A Campanha
Nacional para Erradicação do Cancro Cítrico (Canecc) conseguiu quase
exterminar a citricultura do Paraná e só não levou adiante este
objetivo no Rio Grande do Sul por causa da forte e determinada
posição de alguns poucos ecologistas como o agrônomo José
Lutzenberger. Quando encontravam sintomas desta doença numa única
folha, de uma única planta de um viveiro ou pomar, cortavam e
queimavam impiedosamente todas as cítricas de todo um município.
Esta determinação foi diminuindo para 1000, 500, 100 metros de raio
a partir daquela planta, graças a reação desses indignados cidadãos.
Não adiantavam protestos. Era um ato de guerra. Felizmente, aquela
campanha acabou morrendo, depois de duras discussões e, inclusive,
processo judicial.
A filosofia que fundamentava a ação da campanha parte de um
postulado errado: o agente patogênico, a bactéria Xanthomonas citri,
é considerado inimigo arbitrário, feroz, capaz de, quando presente
junto a qualquer planta cítrica, acabar com todo um pomar, com todo
um viveiro e até com toda a citricultura brasileira. Se isso fosse
uma verdade científica teríamos que erradicar, por exemplo
todas as parreiras atacadas por bacterioses, ou quem sabe todas as
plantas cultivadas contaminadas por bactérias ou exagerando, todos
os seres vivos que tivessem uma bactéria no seu organismo.
Na realidade, parasitas e agentes patogênicos não são inimigos
arbitrários todo-poderosos na destruição. Se assim fosse, a
Humanidade teria sucumbido às epidemias de pestes e outras. Todas as
grandes epidemias só afetam parte de uma população. Os sobreviventes
saem vacinados. Pragas e parasitas são indicadores biológicos que
nos dizem estar nossas plantas ou animais doentes ou
desequilibradas. Elas não têm vez em organismos sadios,
metabolicamente equilibrados.
A solução, portanto, não está na erradicação. A bactéria do cancro
cítrico jamais será erradicada. Ela é cosmopolita, ou seja, vive em
diversas partes do planeta e em diversas plantas da família das
Rutáceas, a família dos citros. Se a Secretaria da Agricultura, de
Ciência e Tecnologia e a Emater pretendem fazer um trabalho
realmente científico, sério, racional e humano (e todos queremos
ajudá-los nisso!), terão que inverter a atual filosofia de trabalho.
Vamos ensinar aos citricultores gaúchos métodos de cultivo que
produzam plantas sadias que não precisam temer o cancro.
Se a nossa citricultura está hoje vulnerável a tanta doença e praga
é porque os atuais métodos de cultivo estão errados. Podemos ler
folhetos dos órgãos governamentais sobre condução de pomares que
ensinam exatamente o contrário do que deveriam ensinar para
fazer plantas sadias, resistentes a parasitas e enfermidades. Em
toda a parte vemos pomares doentes, com folhas amareladas,
cloróticas. Isto porque a maioria dos agricultores seguindo
orientação dos técnicos governamentais insiste em lavrar profundo,
em fazer lavoura de milho e mandioca entre as linhas de árvores, já
com espaçamento insuficiente, e principalmente usar adubos
nitrogenados amoniacais em altas quantidades, como uréia e sulfato
de amônio além de usar e abusar de agrotóxicos como os herbicidas,
fungicidas e inseticidas que desequilibram a fisiologia das plantas.
Vamos aproveitar construtivamente o dinheiro da pesquisa
oficial e do Programa Estadual de Citricultura. Vamos ensinar ao
citricultor a melhorar os pomares e a fazer viveiros bem feitos,
dentro dos conceitos de uma agricultura ecológica: espaçamento
adequado, enxertos que levem em conta resistência e afinidade, nunca
lavrar profundo, manter cobertura com leguminosas e plantas nativas
que nunca será capinada, apenas roçada, adubação orgânica bem
madura, de estercos bem compostados ou de biofertilizante maduro,
adubação mineral de solubilidade lenta, aplicações não de venenos,
mas de substâncias que fortaleçam as plantas e quebra-ventos.
Trabalhos preventivos, para se contrapor ao alastramento do cancro
enquanto a maioria das plantas for suscetível, deverão se limitar a
localizar e tratar as plantas afetadas e a manter o viveiro ou pomar
em quarentena até o desaparecimento total de infecções. Após,
poderão ser liberados.
A verdadeira ameaça à citricultura gaúcha não está no cancro
cítrico, o grande perigo está nos métodos de trabalho com o solo e
com as plantas recomendados pela agronomia oficial. Ao invés da
erradicação de viveiros e de maus tratos aos pomares, sugerimos a
aplicação de técnicas ecológicas e regenerativas na instalação e
manejo dos pomares.
Fundação Gaia
