AgirAzul 10
Conclusões de estudo
Dioxinas: o capítulo final?
Por Carlos Gustavo Tornquist
Em 13 de setembro, a EPA (Environmental Protection Agency/
Agência de Proteção Ambiental) dos EUA apresentou ao público o
resultado do estudo realizado por um grupo de mais de 100
cientistas, que, durante os últimos três anos, estudaram a
toxicidade e as implicações ambientais das dioxinas. O volumoso
documento resultante agora passará por uma avaliação crítica por
parte da comunidade científica e da sociedade civil.
Dentre as conclusões apresentadas:
1. Os níveis atuais de contaminação já estão
causando danos aos seres vivos. Os níveis médicos de dioxinas
presentes nos tecidos do homem e da fauna nos países
industrializados (o que pode ser extrapolado para as áreas
industrializadas do Brasil) já causam alterações nos níveis
hormonais, aumento de produção de certas enzimas e mudanças nas
funções celulares – uma variada gama de efeitos sutis, na sua
maioria relacionados ao desenvolvimento dos seres vivos. Criam ainda
um risco adicional de câncer.
Surpreendentemente, a EPA considera estes níveis “de fundo” (background
levels), apesar de que tecidos humanos congelados por 100 anos
não apresentaram quase nenhum dioxina.
2. Aqueles expostos a um nível maior que a média
sofrem danos maiores. Neste caso o estudo se referia às populações
vizinhas às fontes emissoras de dioxinas – incineradores de lixo,
indústrias que usam cloro em seus processos -, aos trabalhadores
destas indústrias e a pescadores de subsistência em áreas afetadas
pela poluição das indústrias “cloradas”.
3. A principal rota de contaminação é PRODUTOS CLORADOS -> INCINERAÇÃO -> ALIMENTOS. Nos EUA, o estudo mostra que 90% da contaminação vem da ingestão de laticínios e carne (bovina, suína e de aves). A EPA vai além, afirmando que a principal fonte de contaminação são os incineradores de lixo hospitalar, seguidos dos incineradores de lixo urbano, apesar de ter monitorado apenas alguns destes. O documento falha em não mencionar que tipo de material é incinerado – quer dizer, não fala dos precursores das dioxinas, que são os plásticos clorados, o PVC, o papel branqueado com cloro, agrotóxicos clorados, solventes industriais produzidos pela Monsanto, Dow Chemical e outras.
Agora que o documento da EPA está circulando, a indústria química certamente vai querer que se façam novos estudos, que se discuta longamente qual a dose exata das dioxinas que causa qual problema exatamente e por qual mecanismo específico.
Ora, já se sabe desde há 15 anos que as dioxinas causam abortos
em macacos de laboratório quando estes são expostos a concentrações
por ordem de 1 ppt (parte por trilhão) em relação a peso vivo. O que
fica patente é a necessidade imediata de se eliminar os usos
industriais do cloro, ou seja, exercer a máxima da ação
precaucionária, plenamente justificada pelas centenas de estudos já
feitos com relação a estas substâncias.
Nos EUA já existe movimentação para estabelecer legislação proibindo
construção de incineradores de lixo e proibindo o uso de cloro na
indústria. Até por que quase nenhum destes usos de cloro é essencial
atualmente.
Quase ao mesmo tempo, outro estudo, de menor amplitude, sobre dioxinas foi lançado no Canadá. Chega as mesmas conclusões, e enfatiza que a política atual do Canadá com relação a estas substâncias é “ultrapassada, falhando em proteger a saúde humana”.
Referências:
1. “Burning trash for energy: is it na endangered
industry?”. The New = York Times. 11/10/94. Pág. A13.
2. “EPA moves to reduce health risks from dioxin ». The New York
times. = 14/09/94.
3. Greenpeace. “Canada’s dioxin policy not protecting human health”.
Press release. 12/09/94.
4. Greenpeace. “Greenpeace calls for zero dioxin plan in response to
startling new findings”. Press release. 28/09/94.
5. Pesticide action network. “Us EPA dioxin reassessment : next, let
us halt chlorine use and incineration”. Panupdate service. 30/09/94.
* Dioxinas : termo aplicado genericamente a um grupo de substâncias
químicas organocloradas similares. Mo caso em discussão, subentende
também o grupo dos furanos e dos PCBs.
