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Sociedade industrial

Bhopal: há dez anos do massacre

Tradução e adaptação de Carlos Gustavo Tornquist*

No dia 3 de dezembro “comemora-se” os dez anos do trágico evento que matou mais de 4 mil pessoas imediatamente, enquanto dezenas de milhares de outras ficaram feridas ou cegas, muitas delas permanentemente

Histórico

Naquela noite, há dez anos, a fábrica de agrotóxicos da Union Carbide em Bhopal, no estado de Madhya Pradesh, Índia, vazou um gás mortal, o MIC (Isocianato de Metila), sobre favelas que se localizavam ao lado da fábrica. Após a catástrofe, a empresa foi acionada pelo governo da Índia, que buscava US$ 3 bilhões para ressarcimento das famílias das vítimas, além de recuperação ambiental e social das favelas vizinhas.

Enquanto o processo se arrastava por anos na justiça indiana (que de ser bem parecida com a brasileira), a empresa gastava milhões de dólares propagandeando a história de que o acidente fora um ato de sabotagem por parte de um empregado insatisfeito, e não simplesmente a conseqüência imediata e lógica de uma estratégia empresarial de cortar custos relativos a treinamento e a manutenção de equipes de segurança numa fábrica que vinha perdendo lucratividade.

Depois de brincar de gato e rato com a justiça na Índia e nos EUA (sede da UC) por vários anos, os executivos usaram sua influência nos altos escalões de ambos os governos para “acertar o negócio” com o então Governo de Rajiv Gandhi – que tinha uma política de abertura aos capitais estrangeiros e não queria que seu país passasse a imagem de um lugar pouco hospitaleiro às grandes transnacionais.

Assim, o governo indiano, se dizendo legítimo representante das vítimas, acabou aceitando US$ 470 milhões em troca de abandonar qualquer futura ação civil contra a empresa. No ano seguinte, o anuário da empresa orgulhosamente divulgava sua saúde financeira, com a ressalva de ter tido de gastar 56 centavos de dólar por ação para o “acerto” de Bhopal.

Dez anos após, 15 mil mortes

A última contagem chegou a um número de 15 mil mortes diretamente causadas pelo MIC, enquanto mais de 500 mil pessoas pleiteiam algum tipo de compensação por ferimentos. Na velocidade atual em que a justiça indiana processa, a maioria dos requerentes estará morta quando chegar a hora de receber alguma compensação.

Apesar de milhões terem sido gastos na recuperação ambiental da área, a fábrica continua contaminada e abandonada, enquanto grandes quantias foram gastas na demolição das favelas onde moram as vítimas e no embelezamento de ruas e avenidas em áreas remotas de Bhopal.

Bhopal não é uma anomalia, não é a conseqüência funesta dos desmandos de uma empresa irresponsável. Ao contrário, Bhopal é a regra, uma conseqüência natural da filosofia empresarial que subordina os valores humanos e ambientais às cotações de ações na bolsa ou ao demonstrativo de lucros e perdas do próximo trimestre.

As lições aprendidas são:

  • 1. A vida humana é dispensável na busca do lucro.

  • 2. Os governos são cúmplices das transnacionais. Sob a égide do livre comércio, do GATT (Acordo Geral de Tarifas Aduaneiras e Comércio), NAFTAs, etc., as empresas podem transportar suas linhas de produção e seu lixo para mais de 100 países em todo o mundo, arrebanhando no seu caminho a mão-de-obra mais barata e atingindo as condições mais “flexíveis” de destinação final dos seus resíduos tóxicos.

  • Apesar da Terra não ser uma empresa “pré-falimentar”, ela tem sido dilapidada como se assim o fosse por muitas transnacionais.

  • 3. A destruição está aumentando – a exportação de indústrias tóxicas para o Terceiro Mundo está se acelerando. Só na Índia, existem 26 propostas diferentes para a instalação de fábricas relacionadas a processos industriais que utilizam cloro (ou seja, produzirão os potenciais precursores de organoclorados, como as dioxinas e os furanos).

  • 4. Produtos químicos perigosos deveriam ser banidos, em vez de controlados. Existem cerca de 70 mil produtos químicos em uso comercial atualmente.

  • 5. Apenas a cooperação internacional dos movimentos populares pode reverter este quadro e retomar o controle político hoje quase que totalmente nas mãos das empresas.

Epílogo:

Como ativistas ecológicos, como defensores dos direitos humanos, como cidadãos livres aspirando a governar democraticamente nossas comunidades, com justiça e compaixão, temos a responsabilidade de lembrar Bhopal.

Temos a responsabilidade de educar a população do planeta sobre o fato de que as transacionais e as agências internacionais a seu serviço (BIRD, BID, FMI, GATT, etc.) cometem sistematicamente genocídios e “ecocídios”, tudo sob bandeira do livre comércio.

Bhopal não é apenas história. Bhopal é o mundo, aqui e agora.

 



* Traduzido e adaptado de Cohen, Gary. “The Bhopal Union Carbide Massacre: A Tenth Aniversary Call to Action”. Third World Network – India.