AgirAzul 1
CONFERÊNCIA DO RIO
A
Guerra de palavras entre o Norte e o Sul
Por
Carlos Aveline*
No processo preparatório da Conferência do Rio, as dificuldades
entre países ricos do Norte e países pobres do Sul giraram
basicamente em torno de dinheiro. Certa estava a indígena
Rosalia Gutiérrez, da Argentina, quando disse, no Brasil, em um
encontro recente: “Quando os brancos querem salvar a natureza, eles
discutem sobre dinheiro. Os índios não fazem isso”.
Os países pobres, liderados pelo Grupo dos 77, G‑77, exigem em todas
as frentes do processo preparatório compromissos financeiros por
parte dos países ricos antes que pensem em assumir qualquer
compromisso com proteção ambiental ou dizer como pretendem
gastar o dinheiro. Mas são contrários ao monitoramento
internacional das florestas e recursos naturais em geral, e não
aceitam compromissos internacionais que tenham força de lei.
Apóiam‑se, assim, num nacionalismo obsoleto do século passado nos
trabalhos diplomáticos da ECO‑92 enquanto a maior parte dos seus
governos são totalmente entreguistas em relação às corporações
multinacionais e têm como primeira prioridade agradar aos técnicos
do Fundo Monetário Internacional ‑ FMI, com suas políticas
econômicas concretas. Para quem participasse dos trabalhos do 4º
Encontro Preparatório, realizado em Nova Iorque, sem conhecer a
realidade social de política dos países do hemisfério sul, a
impressão seria de que governos honestos, sinceros, democráticos e
comprometidos com a proteção ambiental e o bem‑estar dos seus povos
estavam pedindo um pouco de boa vontade de governos de países ricos
insensíveis.
O
estereótipo é simplório demais. Quem governa nos países do
hemisfério sul? São elites totalmente participantes do mesmo esquema
de poder econômico que explora, embora em menor escala, os povos dos
países mais ricos. Os governos dos países pobres representam muitas
vezes elites corruptas, assassinas, antidemocráticas, responsáveis
por cenas de injustiça social e destruição ambiental pior do que as
que se vê nas sociedades do Norte rico.
Muitas destas elites estão envolvidas em golpes de Estado violentos,
assassinatos planejados de militantes populares, genocídio de povos
indígenas, proliferação nuclear (uma das principais ameaças ao mundo
de hoje), e inúmeros casos de corrupção: temas sobre os quais os
brasileiros viram o suficiente nos últimos anos, inclusive durante o
governo Collor. As ONGs do Sul, por algum motivo, não criticavam os
seus governos. E as ONGs do Norte, por motivos de ética e talvez
também para não serem
atacadas como “pró‑imperialistas”, faziam de conta que só os seus
governos estavam errados.
Assim, alguns dos governos mais antiecológicos e
antidemocráticos pareciam altamente progressistas.
As posições do governo brasileiro eram lamentavelmente pobres. O
documento da Comissão Interministerial para a ECO‑92, a CIMA,
refletia com clareza posições antiecológicas. Sobre conservação de
energia, a CIMA coloca em seu documento de fevereiro de 1991 que
nenhuma medida pode ser tomada, nem mesmo as mais baratas, antes que
“os recursos financeiros necessários” sejam prometidos pelos países
ricos. Uma posição sem sentido, como deve saber o novo secretário do
Meio Ambiente José Goldemberg, que é especialista em eficiência
energética. O documento da CIMA afirma também que “Quando o texto da
Agenda 21 aborda a inclusão dos custos ambientais nos preços da
energia, deve focar explicitamente os países ricos”. Esta colocação
dá a entender que os preços da energia são subsidiados para o povo
do Brasil ou de outros países pobres. Não é o caso. A energia é
subsidiada para que as grandes corporações multinacionais, e o povo
é quem paga a energia mais cara enquanto as indústrias consomem a
maior parte da energia usada. Uma posição muito batida pelos
governos do Sul é a questão da responsabilidade pela crise ambiental.
De acordo com a posição adotada pela CIMA, os países ricos são os
únicos responsáveis pela de devastação ambiental em nossos países. A
posição esquece que sempre houve uma elite local associada aos
mecanismos de dominação internacional. Por casualidade, esta elite
está no poder hoje, no Brasil, como em outros países. Se devemos
cobrar a responsabilidade dos países ricos — e a dívida ecológica é
uma tese correta levantada pelos movimentos ecológicos — não se pode
atribuir‑lhes toda a responsabilidade, porque uma parte fundamental
dos mecanismos de criação de injustiça social e destruição ambiental
está precisamente em nossos países pobres, mesmo que nem sempre seja
cômodo dizê‑lo.
Pedir dinheiro sem que haja uma mudança nos planos de
desenvolvimento em nossos países é sem dúvida inútil e perigoso. Os
países pobrem vêm cobrando uma mudança de estilo de vida dos países
ricos sem que eles mesmos tenham feito nada para melhorar sua
situação de injustiça social, falta de democracia, ou falta de
honestidade administrativa. Ao contrário, é promovendo com recursos
próprios experiências em desenvolvimento sustentável baseado na
comunidade que nossos governos ganharão credibilidade para exigir
mudanças nos países ricos. É reconhecendo que todos os governos
apresentam tanto falhas
como possibilidades de melhorar suas políticas, estejam eles no
Norte rico ou no Sul pobre, que as ONGs poderão dissipar as nuvens
da falsa guerra de palavras entre Norte e Sul, que em Nova Iorque
parecia criar um impasse diplomático
e político para o
processo da UNCED‑92.
O
importante, no entanto, é que o êxito da ECO‑92 não está no que se
poderá assinar no Rio de Janeiro. O aspecto mais central, e positivo,
é que surgiu em torno das Nações Unidas um movimento mundial de
cidadãos. A ONU vai ao encontro dos povos diretamente e detona um
processo mundial democrático. A humanidade está entrando em
assembléia‑geral. Vai ser uma assembléia linda — e longa. O debate
universal que ela traz está apenas por ser aprofundado no Rio de
Janeiro em junho e durante as próximas décadas. Trata‑se de
compreender melhor a vida como processo evolucionário de longo prazo.
* Ao tempo da publicização deste artigo
(1992), o
autor é presidente da
União Protetora do Ambiente Natural ‑
UPAN. Contatos com a Caixa Postal 189 - 93001-970, São
Leopoldo, RS.
