AgirAzul 1
A Militância no dia-a-dia
MAGDA RENNER EM BRASÍLIA
Mata Atlântica, Fórum das ONGs e Consolidação das Leis Federais
Da Reportagem
Magda Renner, presidente da ADFG‑AMIGOS DA TERRA esteve três
dias em Brasília, recentemente, participando de reuniões no Conselho
Nacional do Meio Ambiente, órgão este que reúne representantes dos
Estados federados, organismos federais e entidades ambientalistas
não‑governamentais (em minoria, claro).
Dia 27 de abril, Magda partipou da reunião da Câmara Técnica para
Assuntos Jurídicos do Conselho Nacional. O assunto foi
exclusivamente Mata Atlântica: o governo propunha uma minuta de
decreto modificando o de nº 99.547 (a íntegra está publicada na
seção de legislação de AgirAzul), de forma a permitir, de
alguma forma, algum tipo de exploração nesta área. O governo do
Estado de São Paulo exerceu grande pressão para que isto acontecesse.
A ADFG‑AMIGOS DA TERRA era a única Organização ambientalista
não‑governamental presente. O fato é que pela nova legislação
proposta, abria‑se a possibilidades de supressão de áreas verdes
para obras com interesse social, após RIMA e aprovação do IBAMA.
Magda conta que opôs‑se a isto: “Ora, é preciso que se saiba que
hoje ainda existem somente 3% da Mata Atlântica nativa intocada!”. E
continua: “Coloquei que estávamos cansados de ver em todas as nossas
Leis estas aberturas para obras em lugares em que a Natureza precisa
de seu espaço”.
Na
reunião ordinária do plenário do CONAMA, dois dias depois, para onde
a matéria foi remetida, constatando que estava em minoria, Magda
Renner articulou a assinatura de um documento pedindo vistas do
processo para decisão futura. Onze assinaturas, tanto de ONGs,
quanto de algumas governamentais apoiaram a moção. Por imposição do
IBAMA, que exigia decisão rápida, foi marcada uma extraordinária do
Conselho Nacional para o dia 18 de maio (veja box com matéria sobre
o assunto)
A
CONSOLIDAÇÃO DAS LEIS FEDERAIS E A RIO 92
No
segundo dia, 28‑4, reunião extraordinária do CONAMA, convocada para
tratar especificamente da Consolidação das Leis Federais do meio
ambiente proposta pelo Governo Federal.
O secretário José Goldemberg abriu os trabalhos fazendo
relato sobre as negociações da Rio 92. Nas entrelinhas, Magda Renner
leu que, “mais uma vez, os governos do mundo inteiro não estão
interessados em meio ambiente. Os países do terceiro mundo estão
interessados nas verbas que poderão receber e os do primeiro mundo
estão interessados em conservar o seu “status quo” dando somente uma
vestimenta verdejante a este “status quo””. Na parte da manhã,
totalmente perdida, houve discussão para distribuir as pessoas em
grupos de trabalho para analisar todo o texto. Na tarde, entretanto,
Magda Renner pediu a palavra para colocar em discussão a própria
validade da Consolidação. A discussão progrediu de tal forma neste
sentido que foi votado e aprovada a rejeição total a este projeto de
consolidação, por unanimidade.
DIREITOS SOBRE A VIDA
O
outro assunto tratado na reunião ordinária do CONAMA de quarta, além
da Mata Atlântica, foi a questão da lei das patentes industriais ‑
Projeto de Lei nº 824. O art. 18 inclui o direito ao patenteamento
de microorganismos e processos microbiológicos.
O
posicionamento defendido pela ADFG‑AMIGOS DA TERRA venceu, e
o Conselho remeteu ao presidente da República uma moção, bem como
aos deputados que fazem parte da Comissão que está estudando este
projeto de lei no Congresso, solicitando que ele não seja votado.
Antes disso, que seja retirado do seu texto o art. 18, § 1º e 2º,
que permitem este patenteamento de microorganismos, etc. A moção
também solicita maior participação da sociedade civil e,
principalmente, da sociedade científica. Do ponto de vista dos
ecologistas, considera Magda, isto foi uma vitória. Para ela, esta
proposição do Governo corresponde exatamente ao que os Estados
Unidos e alguns outros países também querem impor através das
negociações do GATT ‑ Acordo Geral de Tarifas ‑ o que é uma
orientação negativa para os países do terceiro mundo. Magda
desconhece qualquer manifestação da representação gaúcha no
Congresso a respeito.
Não é só a ADFG‑AT que está nesta luta. Grupos excelentes,
que estão se preocupando com isto há mais tempo, enviaram excelentes
trabalhos ao Congresso e participaram de uma ou outra discussão lá.
Nesta reunião ordinária do CONAMA, alguns conselheiros, entre eles o
Fernando César Mesquita, se levantaram para protestar contra
mudanças de superintendentes regionais do IBAMA porque seriam
mudanças absolutamente políticas; não mudanças pelo meio ambiente.
Devo dizer que a Maria Teresa ouviu com muita atenção, inclusive
dizendo que os esforços dela iam se concentrar para não dar
possibilidades que isto aconteça.
Magda faz questão de registrar que a nova presidenta do IBAMA, Maria
Teresa Jorge Pádua dirigiu com brilhantismo a reunião que foi das 9
às 17 horas sem interrupção.
O
FÓRUM DAS ONGs
Antes de Brasília, Magda Renner foi a Belo Horizonte participar da
última grande reunião organizativa do Fórum das ONGs, paralelo à
Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento
‑ CNUMAD‑92, ou, em inglês, UNCED‑92 ‑
Nesse meio tempo, Goldemberg anuncia que o governo vai custear a
infra‑estrutura para o Forum Global das ONGs. O Fórum não comentou
muito o assunto, mas, para Magda, isto não é paternalismo,
absolutamente, e até responde a reivindicação do próprio Forum.
Diz a Magda Renner ter acompanhado “as primeiríssimas reuniões do
Fórum Brasileiro, e, depois, o Ben Hur: isto faz 2 anos ou mais”.
Continua: “Eu constatei, para grande satisfação um processo enorme
de amadurecimento das pessoas representando suas entidades que fazem
parte do Fórum. No início, parecia que estávamos numa reunião com
pessoal de 18 anos, recém ingressos na Universidade e que acham que
tem todas as soluções e que sabem todas as coisas. Agora nós temos
pessoas amadurecidas com críticas absolutamente fundamentadas, com a
compreensão dos assuntos que realmente são importantes, amadureceram
para uma visão em que serão tratados os problemas globais e que cada
um de nós, com seu pequeno problema local não pode querer a mesma
atenção. Os caminhos estão abertos para um maior amadurecimento
ainda entre as ONGs ambientalistas e as demais. Ao meu ver um
aprendeu do outro e é claro que existem possibilidades de continuar.
No entanto, eu tenho o receio que, depois da UNCED‑92, venha um
período de refluxo porque uma coisa nós todos estamos vendo: o
esforço que cada um hoje está fazendo não é um esforço que se possa
fazer indefinidamente. E tendo em vista a situação mais horrível,
precária, dramática que estamos vivendo neste país, cada vez mais
difícil estão os trabalhos das ONGs.”
