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Unidades
de Conservação -
Parque
Estadual de Itapuã -
Falta a Implantação Definitiva!
Por
Rogério Só de Castro*
Com 5533 hectares localizados no município de Viamão e distante
apenas 60 Km do centro de Porto Alegre, o parque apresenta uma
diversidade de ecossistemas dificilmente encontrada em outros
lugares. Morros, matas, campos, banhados, praias, dunas, lagoas e o
lago Guaíba integram‑se harmoniosamente, proporcionando refúgio para
animais ameaçados de extinção como o bugio ruivo, a lontra, o
urubu‑de‑cabeça‑vermelha e o jacaré‑de‑papo‑amarelo, além de ser
parada obrigatória para diversas espécies de aves migratórias. Em
suas matas, Itapuã abriga figueiras seculares e grande variedade de
frutíferas nativas como araçás, pitangas, araticuns, tarumãs.<T>Ocorre
também uma espécie de palmeira híbrida, resultado do cruzamento da
palmeira do campo (butiá) com a palmeira do mato (gerivá) e uma
pequena e delicada plantinha que se alimenta de insetos, a drósera.
Dos vários pontos importantes, levando‑se em consideração apenas a
beleza paisagística, destaca‑se o Morro da Grota. Do alto dos seus
286m contempla‑se o azul escuro da Lagoa Negra contrastando com o a
coloração mais clara, marrom acinzentado, da Lagoa dos Patos. Esta
coloração escura é resultado da grande quantidade de matéria
orgânica em suspenção. Na subida até o topo do morro,
encontramos os afloramentos graníticos, característicos da
região, recobertos por bromélias, cactáceas e orquídeas formando
verdadeiros “jardins suspensos”.
Mas a história de Itapuã não é só de belezas intocáveis como pode
parecer. Em algumas regiões do parque são encontrados vestígios da
cultura dos índios Guaranis, que em tempos não muito distantes,
habitavam a Praia das Pombas e arredores da Lagoa Negra. Estes
sítios arqueológicos mostram a maneira como estes índios viviam
através de restos de utensílios (potes e vasílias de barro) bem como
restos de animais (pelos, ossos).
Itapuã também guarda
passagens de guerra e nos conta um pouco do Rio Grande do Sul.
Do alto do Morro da Fortaleza avista‑se uma pequena ilha, a
ilha dos Juncos, distante 1 Km da costa. Qualquer embarcação que
chega da Lagoa dos Patos em direção a Porto Alegre tem que passar
por ali. Sabendo disto os farrapos ocuparam a posição estratégica do
Morro, instalando canhões e utilizando as formações graníticas
naturais para abrigar as tropas.
Ainda existem alguns lanchões afundados pelos farrapos no
Lago Guaíba e que já foram objeto de estudos do Grupo de Estudos
Farroupilhas e mais particularmente do historiador Cary Vale.
Mesmo contando com todos estes requisitos para se tornar um parque
modelo, a efetivação do Parque Estadual de Itapuã não esta sendo
nada fácil. Criado em 1973, o parque vem resistindo governo após
governo ao descaso das autoridades e a todo tipo de depredação. A
retirada de pedras, a caça e a pesca predatória, invasões para a
construção de casas de veraneio e o não pagamento das
desapropriações, depois de 19 anos de sua criação, quase
inviabilizaram o aproveitamento daquela área como unidade de
conservação.
No
início dos anos oitenta a invasão de casas de veraneio ganha um novo
aliado, a prefeitura de Viamão. Passando por cima dos decretos que
desapropriavam aquela área, o hoje deputado Tapir da Rocha, prefeito
de Viamão na época, cobra impostos e abre ruas na Praia de Fora,
incentivando o loteamento clandestino.
Em
1985, indignados com o corte de pedras no parque e a velocidade com
que crescia o loteamento ilegal na Praia de Fora, um grupo de
pessoas ligados a entidades ambientalistas e acostumados a acampar
na região resolve se organizar e forma a Comissão de Luta pela
Efetivação do Parque Estadual de Itapuã (CLEPEI).
Manifestações, denúncias nos meios de comunicação e passeios ao
parque foram organizados com a finalidade de informar a população a
real situação e as barbaridades que aconteciam na região. Reuniões
com os órgãos públicos, com secretários e com os próprios
governadores foram realizadas na tentativa de solucionar os
problemas do parque. A persistência e determinação destas pessoas
não foi em vão.
A
primeira grande vitória da CLEPEI veio com a retirada das
pedreiras, pondo fim a uma devastação de mais de vinte anos. Já em
dezembro de 1991 a CLEPEI acompanha a retirada dos invasores
da Praia de Fora depois de três anos de luta judicial.
Mas a luta pela efetivação do Parque Estadual de Itapuã ainda está
longe de terminar. Desde 1991, administrado pelo Departamento de
Recursos Naturais Renováveis (DRNR), órgão responsável por todos os
parques estaduais, as perspectivas são bem melhores. Mas problemas
como o pagamento das desapropriações, a falta de funcionários e
equipamentos para a fiscalização e a demolição das 800 casas que
permanecem na Praia de Fora após a retirada dos invasores, ainda não
encontraram solução.
O
Governo do Estado dá demonstrações claras da falta de prioridade nas
questões ambientais.
Recentemente, em 24‑4, membros da Comissão estiveram com o então
Secretário da Agricultura, Aldo Pinto, reivindicando a instalação de
uma sede administrativa, retirada de todos os invasores e
investimentos em melhoramentos gerais. Esperamos todos que o novo
Secretário mantenha a palavra de seu antecessor.
Precisamos de mais pessoas nesta briga para que o governo estadual
se convença da importância de investir nos Parques Estaduais, pois
não se cuida do meio ambiente apenas com “boas intenções”.
A comissão está aberta a todos que quiserem participar deste
desafio. Participe. As reuniões são semanais, às quartas‑feiras,
18h30min, na sede da AGAPAN. Informações pelo telefone (051)
228‑7352. A Comissão de Luta é, atualmente formada pelas seguintes
entidades: AGAPAN, DAIB (UFRGS), CAEG (UFRGS),
FUNATURA, GEV.
* Ao tempo da publicação deste artigo, em 1992, 0 autor
participava da CLEPEI.
