AgirAzul 1
Carta Aberta ao Instituto Liberal
A ADFG‑Amigos da Terra
lançou publicamente esta carta dirigida ao Sr. Carlos Biedermann,
presidente do Instituto Liberal do Rio Grande do Sul, que, em artigo
na Zero Hora, criticou a atuação de ecologistas.
"Caro Senhor:
Considerando sua inédita tese de que
vidas humanas às milhares se perderam e se perdem pela ação dos
movimentos preservacionistas (Zero Hora, 20‑5‑1992), dada a
gravidade da ocupação, para que a sociedade possa tomar as
providências necessárias e a proteger‑se de tão perversos
assassinos, solicitaríamos a V. Sa. mencionar quais grupos
desencadearam esses processos, assim como quando e onde aconteceram
e o número de vítimas.
Quem teve a responsabilidade pelas
tragédias de Minamata, Seweso, Bhopal, Goiânia, Vila Socó/Cubatão?
Minamata, Japão, década de 50.
Instala‑se uma fábrica de petroquímicos, começando a poluição por
mercúrio. Em poucos anos alastra‑se pelo vilarejo uma até então
desconhecida doença, matando primeiro as crianças e os idosos.
Multiplicam‑se os abortos e as más‑formações congênitas, distúrbios
psicomotores, criando inválidos para toda a vida e que afeta também
a cadeia genética. A comunidade internacional levou 12 anos para
reconhecer oficialmente a causa da doença ‑ contaminação por
mercúrio. Os responsáveis ‑ indústria e ministro da saúde ‑ foram
julgados e condenados.
Seweso, Itália ‑ 10/07/76. Na fábrica
ICMESA (Hoffmann La Roche) uma explosão libera um pó branco na
atmosfera, aparentemente inócuo. Não existe técnico à disposição.
Passados alguns dias, a morte dos animais e os graves distúrbios em
toda a população atingida não podem mais ser ignorados pela Matriz
de Genebra. A população foi evacuada e a área, interditada durante
anos. O pó branco era a dioxina, um dos piores venenos criados pela
indústria química.
Bhopal ‑ 3/12/84. Consuma‑se uma das
maiores catástrofes industriais. Uma sirene de alarme soa na fábrica
da Union Carbide. O inspetor geral tranqüiliza os operários ‑ nada
pode acontecer. Horas após, espalha‑se uma nuvem tóxica. Duzentas a
trezentas mil pessoas atingidas. Estimativas oficiais calculam cerca
de 1.700 vítimas letais e 40 a 60 mil gravemente lesionados para
sempre. “O Gás da Morte ‑ como o progresso industrial ameaça
a Vida” ‑ Capa de Veja em 12/12/84.
Quais os culpados? Será preciso
transcrever a resposta?
E quanto aos agrotóxicos? Quem os têm
promovido em campanhas de propaganda milionárias (principalmente no
3º Mundo) levando a seu uso abusivo, com desastrosas/trágicas
conseqüências?
A ECO‑92 ‑ o acontecimento mais
importante da história da humanidade, segundo a ONU, foi convocada
devido à extrema gravidade da crise ambiental e à urgente
necessidade de conciliá‑la
com os caminhos do desenvolvimento.
Fossem os problemas tão simples, como
V. Sa. parece acreditar (trazendo exemplos como “galinhas e vacas
são preservadas porque são propriedades privadas”), justificar‑se‑ia
acontecimento de tal magnitude, acarretando despesas bilionárias e
movimentando o maior número de chefes de estado jamais visto?
Para entender‑se o pensamento ecológico
e a problemática econômica‑social e política que envolve,
aconselharíamos a leitura de alguns clássicos sobre o tema, que
colocamos à disposição do público e, em especial, de V. Sa., em
nosso escritório, à rua Miguel Tostes, 694.
V. Sa. passaria então, talvez, a
abraçar uma nova corrente empresarial ‑ que hoje finalmente começa a
se expandir ‑ adaptando a economia aos imperativos da ecologia, no
respeito à vida em todas as suas múltiplas manifestações.
Sendo o que queríamos comunicar‑lhe e ao público em geral, atenciosamente,
(assinam)
Magda Renner,
Presidente,
e Giselda Castro,
Vice‑presidente.
